retorna ainda mais político e pesado no novo Gigaton
8.2

A inquietação sempre foi o motor criativo para o Pearl Jam. 30 anos e 11 depois depois, ainda podemos dizer que a banda liderada por Eddie Vedder mantém firme seu interesse em fazer da insatisfação um escape para um rock que recusa em se acomodar. O engajamento político do grupo, que vai bem além do puro verniz estético, mira suas atenções para o populismo e os tempos obscuros de negação à ciência e neofascismo. O fato de Gigaton ter na capa uma geleira derretendo, por si só, soa como uma provocação.

Ouça mais novidades musicais na nossa página Novos Sons!
Leia mais críticas de novos discos aqui na Revista O Grito!

A arte da capa traz uma foto intitulada “Ice Waterfall”, capturada pelo fotógrafo, filmmaker e biólogo marinho canadense Paul Nicklen. Tirada em Svabald, na Noruega, a imagem retrata a calota de gelo de Nordaustlandet, que se derrete em enormes quantidades de água. O conhecido ativismo ambiental do grupo aparece em faixas como “Dance Of The Clairvoyants”, além de fazer parte de diversas outras faixas, de maneira subjetiva e por vezes sarcástica.

Carregadas politicamente, as letras são cheias de nuance ao denunciar a falta de conexão entre as pessoas e o estado do mundo atual, em caminho claro ao obscurantismo. Já em outros momentos do disco nos deparamos com abordagens mais diretas como críticas ao negacionismo científico e ao capitalismo globalizado. As composições se conectam com as vivências políticas dos integrantes dentro e fora dos palcos, com um ativismo voltado sobretudo para a defesa do meio ambiente. Não à toa, a última música inédita da banda antes deste disco foi “Can’t Deny Me”, sobre o aquecimento global.

O som segue afiado com os velhos maneirismos do grupo (quem estava com saudade do vocal meio esganiçado de Vedder?) e devem agradar aos fãs mais antigos. As quatro primeiras faixas trazem uma bem azeitada profusão de riffs e fúria em uma produção sofisticada que deu origem a um som encorpado semelhante à fase mais indie-rocker do grupo (tipo o Binaural, de 2000). A metade final do disco perde em força, mas mostra o grupo aberto a outras influências sonoras (como o folk/country de “Retrograde”) e a surpreendentemente experimental faixa final, “River Cross”.

Resistindo a se apegar à fórmula, o Pearl Jam segue como um dos mais lúcidos grupos do rock.

PEARL JAM 
Gigaton
[Republic/Universal, 2020]

Mais críticas de discos

Leia Mais
HQ Mundo Mulher: Woman World, de Aminder Dhaliwal, imagina um mundo sem homens