Imagine você, gay, negro, pobre, que diariamente precisa se reafirmar socialmente como sujeito. Você que é também amante de cultura pop e de quadrinhos, mas que sempre sentiu certo distanciamento dos espaços, digamos, mais tradicionais de consumo e debate desse tipo de conteúdo. Agora, imagine-se circular por um ambiente democrático, inclusivo, que respeita as diversidades e que permitem maior interatividade entre seus fãs. Nesse sentido, surgem as novas feiras alternativas de cultura pop, como a , que teve sua primeira edição em junho de 2019, a , que vem atuando desde 2018 e a , em São Paulo.

Diversos eventos no Brasil reúnem fãs de cultura pop, HQs e cinema para vários dias de uma experiência cativante e que adentra no imaginário afetivo de milhares de pessoas. A maior delas, a Comic Con Experience, acontece em São Paulo e já se tornou a maior do mundo em número de visitantes. Normalmente, esses eventos celebram seus personagens, seus criadores e toda a cultura em torno deles. No entanto, nos últimos anos, ficou cada vez mais evidente que a busca por mais representatividade nessas produções acabaria levando à busca de novos modelos de eventos, mais inclusivos. 

No cinema, por exemplo, a chegada de um super-herói negro como protagonista de uma superprodução foi recebida como uma vitória. O filme Pantera Negra (2018), de Ryan Coogler, baseado no personagem da Marvel, foi a primeira película desse gênero a ter uma narrativa centrada na ancestralidade do povo negro. Sucesso de público e crítica, tornou-se ainda o primeiro longa de super-herói a concorrer ao Oscar de Melhor Filme. De sete indicações, o filme levou três estatuetas para casa. 

Debate durante a PerifaCon. (Foto: Malu Moes).

Essas vitórias valem muitos para os fãs não-brancos que hoje, com o aumento das informações, consumo e interatividade, conseguem se ver representados nas telas de cinema de maneira positiva e não como bandidos e/ou escravos. Essa desconstrução chama a atenção dos organizadores de eventos alternativos e, sobretudo, dos próprios fãs de cultura geek.

“A representatividade nos títulos das principais editoras (DC e Marvel) tiveram um aumento significativo na representatividade e inclusão. É perceptível que principalmente a Marvel Comics tem explorado muito a diversidade de seus heróis/personagens”, diz o professor de Literatura e estudioso de cultura pop, Marcílio Costa. Segundo ele, as HQs e heróis sempre trouxeram questões de representatividade, ainda que de forma mais sutil.

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Os melhores quadrinhos de 2020

“Hoje temos Kamala Khan, a Miss Marvel, representada por uma heroína muçulmana. Temos vários personagens gays e casais  gays em todas as equipes de heróis da editora. O queridinho do público, Deadpool, é assumidamente pansexual. Thor e Homem de  Ferro, personagens icônicos da editora, passaram o manto para mulheres nos quadrinhos. Em relação a DC Comics, a Batwoman Kate Kane é homossexual assumida nas HQs. A própria Mulher-Gato sempre flertou com Homens e Mulheres”, afirma o professor.

Frequentar o universo geek demanda deslocamento e dinheiro. Falar do acesso aos conteúdos é tão importante quanto a representatividade de seu conteúdo.

Marcílio é ainda mais enfático ao comparar alguns produtos de massa, como Pantera Negra e X-Men com temas ligados às minorias políticas, que são temas pautados nessas duas produções da Marvel. “Em 1975 com a reformulação do título dos X-Men, a representatividade ficou mais latente com a criação de uma nova equipe de Mutantes vinda das diversas partes do planeta. Temos uma africana (Tempestade), um Russo (Colossus), um Canadense (Wolverine), um Alemão (Noturno), um Japonês (Solares) etc. A série sempre retratou ao longo dos anos os mais diversos temas: racismo, homossexualidade, antissemitismo, religião e minorias. Ou seja, representatividade não é algo novo nos quadrinhos, mas foi intensificada nos últimos anos”, comenta. 

A hora e a vez das POCs

Os grandes eventos de quadrinhos/séries que acontecem no Brasil anualmente parecem estar ainda descolados desse debate de maior inclusão e representatividade da cultura pop. Organizada por Mário César e Rafael Bastos Reis, a POC-Con chegou com o intuito de promover o aumento da presença da comunidade LGBTI+ no universo da cultura pop.

Mário começou a publicar suas primeiras HQs com temática gay em 2013, numa época em que quase não havia ninguém produzindo histórias que tratassem do tema. O meio nerd é, ainda, um espaço machista, em que manifestações de homofobia e transfobia são comuns; e as feiras, por sua vez, eram espaços pouco democráticos para essa inclusão. 

“A Poc Con ganhou uma importância maior pelo momento político que vivemos também. Estamos com um governo que promove uma caça às bruxas contra artistas e contra militância LGBTI+. Estamos mostrando que não somos vagabundos mamando na teta do governo e nem estamos sexualizando crianças com mamadeiras de piroca e nem qualquer asneira do tipo. Não somos inimigos da sociedade, não representamos nenhuma ameaça à família, nem estamos doutrinando ninguém, queremos apenas que parem de nos agredir, que nos respeitem e nos deem oportunidades. E a arte que fazemos gera renda e emprego”, afirma Mário.

A HQ é queer

Por Carol Almeida, Dandara Palankof e Paulo Floro Mary trabalha numa loja de quadrinhos na pequena cidade de Fort Wayne, Indiana, Estados Unidos. Sua rotina consiste fundamentalmente em lidar com os clientes de sempre: meninos e homens que aparecem por lá buscando história de meninos e homens em missões heroicas, hercúleas e, claro, heteronormativas. Mas naquele 3 de dezembro de 2016, Mary percebeu que havia entrado na loja uma adolescente, aparentemente confusa, buscando quadrinhos que possivelmente ela não conhecia. A […]

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Ele é ainda mais incisivo quando fala do espaço democrático que a Poc-Con oferece para discutir pautas relacionadas à gênero e sexualidade. Mesmo sabendo que a maioria das editoras de quadrinhos não têm autores desse meio em seus catálogos, a feira Poc-Con vem justamente para quebrar esses paradigmas. Essa importância fica clara para Mário e para todos que vão ao evento. “Uma feira como a Poc-Con dá mais visibilidade pra autores LGBTI+ e incentiva o surgimento de novos talentos. A feira também mostrou pras editoras e empresas que existe público interessado em material com essas temáticas. Muitos autores nos relataram que venderam melhor lá do que em um dia de CCXP, por exemplo. E eventos como o nosso são bons pra tornar questões de orientação sexual, identidade de gênero e representatividade algo mais natural pro público nerd, que vive choramingando e vomitando ódio toda hora que anunciam um filme, série ou HQ nova protagonizado por alguma minoria”, explica.

Os grandes eventos de quadrinhos e séries que acontecem no Brasil anualmente parecem estar ainda descolados do debate de maior inclusão e representatividade da cultura pop.

Frequentar o universo geek, no entanto, demanda deslocamento e dinheiro. Para começar, de modo geral, os ingressos para essas feiras possuem valores consideravelmente elevados; além disso, são voltadas quase que exclusivamente para o consumo, sem promover, necessariamente, reflexões sobre o contemporâneo a partir dos objetos do universo no qual estão inseridos. Com o objetivo de proporcionar a experiência do universo nerd de uma forma alternativa àquela definida unicamente pelo consumo, surgiu a PalafitaCon

André Azenha, realizador da PalafitaCon, considera que as convenções de cultura pop normalmente não são tão democráticas. Em relação a isso, ele é claro quando afirma que “a PalafitaCon tem uma pegada mais social em relação aos outros eventos do gênero que acontecem no Brasil. Nossa função é de formar plateia. É levar essa cultura geek para uma região onde dificilmente as pessoas têm acesso a ela. Ao mesmo tempo, estimular pessoas que não vivem aquela realidade a conhecê-la.”

“Vivemos um momento bem interessante para questionamentos, pois o cenário político acirrado evidencia que é necessário lutar e resistir” – Anne Quiangala.

Outra convenção que vem ganhando destaque é a PerifaCon, a primeira convenção de quadrinhos do mundo a acontecer dentro de uma favela, no caso, a quebrada de Capão Redondo em São Paulo. A edição de 2019 foi um sucesso e reuniu mais de 4 mil pessoas, a maioria jovens pretas e pretos vindos da periferia. O êxito do evento chama atenção ainda pela necessidade de repensar novas formas de financiamento que sejam igualmente democráticas. No caso da PerifaCon toda a produção foi viabilizada através de financiamento coletivo via Catarse.

Diversidade chega ao mainstream

Essa busca por maior representatividade está sendo refletida na produção das HQs hoje. O que antes era presente apenas na produção alternativa, passou a pautar também produtos populares. “A renovação da produção underground sobre gênero, sexualidade, feminismos, influenciou o mainstream a ponto de termos uma Graphic MSP do Jeremias e a inserção de uma nova protagonista negra na rua do Limoeiro, a Milena. Em suma, vivemos um momento bem interessante para questionamentos, pois o cenário político acirrado evidencia que é necessário lutar e resistir”, comenta Anne Quiangala pesquisadora na área de quadrinhos, com ênfase em estudos feministas e de raça.

O professor de geografia Jefferson Arthur concorda que a representatividade vem crescendo dentro do universo das HQs de heróis, mas que ainda é preciso de mais força. “Embora sejam produções majoritariamente destinada para crianças, é aí que se começa a trabalhar essas questões mais sociais e coletivas. Hoje nós temos personagens negros mais atuantes, inclusive como protagonistas. A própria noção de identidade é trabalhada neles, como por exemplo em Pantera Negra. Antes, os negros pareciam apenas um acessória e eram estereotipados de acordo com o padrão branco ‘civilizado’”, destaca o geógrafo. 

“A Poc Con ganhou uma importância maior pelo momento político que vivemos também. Estamos com um governo que promove uma caça às bruxas contra artistas e contra militância LGBTI+.” – Mário César

Anne é certeira quando afirma que essas produções e os eventos mais inclusivos têm um papel de acolhimento dos grupos que são vitimados cotidianamente. “O anseio por representatividade de grupos historicamente excluídos é natural, ainda mais numa sociedade estruturada pelo racismo institucional e cotidiano. O desejo de se sentir parte é realmente poderoso e transformador”, afirma ela. “Tais eventos se propõem a focar o conteúdo para esse público, e concretizar o desejo de estar num espaço lúdico onde a sua identidade, performance ou aparência não lhe transformam em um alvo.”

Nuno Talicosk é jornalista, músico e dançarino pernambucano. 

Este texto foi publicado originalmente na edição impressa da revista Plaf. Você também pode ler todas as edições passadas em pdf e aqui comprar a edição atual.

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