Este texto foi publicado originalmente na edição impressa da revista Plaf. Você também pode ler todas as edições passadas em pdf e aqui comprar a edição atual.

Tudo que cerca o mais recente trabalho de Marcelo D’Salete, Angola Janga, vem sublinhado pela dimensão grandiosa empreendida pela obra e seu artista: 11 anos de pesquisa, dezenas de livros lidos, viagens feitas e entrevistas realizadas que desembocam em 432 páginas de histórias em quadrinhos que se cruzam para, na dimensão simultaneamente do detalhe e do panorama, se aproximar das dimensões sensíveis e simbólicas de um dos maiores acontecimentos da História do Brasil: a existência de Palmares. 

Nenhum número, no entanto, consegue dar conta do quão importante é esse álbum, não apenas para os quadrinhos brasileiros, mas sobretudo para que se revisite as ferramentas narrativas, de uma maneira geral, que constituem o imaginário de ser brasileiro. 

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Na entrevista desta edição, D’Salete conversa sobre os processos internos e externos que o levaram a Angola Janga, as não tão sutis operações do racismo, a necessidade de se debater quadrinhos e negritude e as influências e referências que atravessam não apenas esse, mas como todos os seus demais livros.

Já são mais de dez anos de pesquisa pra você chegar a Angola Janga. E essa é uma narrativa que, como várias outras narrativas de resistência negra no Brasil, são apagadas ou minimizadas em nossos livros de História. Quando apareceu pra você a urgência de se fazer uma HQ sobre Angola Janga e, desde então, que tipo de material você foi buscar para compor esse trabalho?

Minha trajetória como alguém interessado em artes visuais começou cedo. Tive muita  influência do grafite e do hip hop na passagem dos anos 1980 para os 1990. Quando já estava um pouco mais velho, fiz um curso sobre História do Brasil focado na população negra. Era um curso com o Petrônio Domingues, no Núcleo de Consciência Negra da USP, em 2004. Ali tive contato com textos sobre Palmares. 

Lendo sobre o conflito, percebi o potencial para uma boa história em quadrinhos. Notava, por outro lado, que havia uma ausência dessas narrativas nos quadrinhos que tinha acesso. Em 2006 foi quando cheguei a ler um livro maior sobre Palmares. Isso foi antes de publicar Noite Luz (2008) e Encruzilhada (2011). Naquele momento, eu já sabia que fazer Palmares em quadrinhos seria um projeto de médio e longo prazo. Mas não imaginava que fosse durar 11 anos! Precisei de muita pesquisa e leitura pra encontrar o caminho certo. Meu propósito foi fugir de alguns arquétipos sobre escravidão, evitar as histórias que não aprofundam esses personagens e que os colocam somente como pessoas passivas. 

Pra isso, pesquisei imagens e textos da época. Aos poucos fui percebendo que os fatos sobre Palmares eram fatos registrados do ponto de vista dos soldados brancos. Pra mim, era importante tentar reconstruir a partir da ficção um certo universo cultural dessas pessoas, seus objetivos, princípios, sua cosmogonia, que era em grande parte Bantu, do Congo e Angola. Fui no Memorial dos Palmares, em Alagoas, para conhecer um pouco da geografia e clima do local. Tudo isso ajudou a montar esse quebra-cabeça e construir a narrativa. O nome Angola Janga, que pode ser traduzido como “pequena Angola” ou “minha Angola”, era um termo usado pelos próprios palmaristas no século 17 para se referir aos mocambos da Serra da Barriga. Considerei que era a melhor opção para o título do livro, na tentativa de trazer a perspectiva dessas pessoas para o centro.  

O racismo opera na lógica de negar a humanidade dos outros.

Imagino que, durante esse longo processo, muita revisão da tua própria história tenha se passado pela tua cabeça. O quanto esse livro também te ajudou e foi teu parceiro num processo de autorreflexão?

Este livro foi relevante para repensar nossa história e perceber o quanto ainda precisamos fazer para que essas narrativas não sejam esquecidas. Palmares e todo o sistema colonial do século 17 tinha conexões não só com o que estava acontecendo no Brasil, mas também com o que estava acontecendo na África, principalmente em Angola e Congo. Soldados luso-brasileiros atuavam nos dois lados do Atlântico naquele período, o Terço do Henrique Dias foi um exemplo disso. Em Angola, guerreiros da rainha Nzinga, capturados na guerra, chegaram a vir, escravizados, para o Brasil. Inclusive, os senhores de engenho de Pernambuco no século 17 temiam que houvesse contatos entre Palmares e líderes africanos escravizados.

Internamente, houve o acordo com Ganga Zumba que resultou nas terras de Cucaú em 1678, criando uma cisão com os mocambos de Palmares. Comparando com outros países, na Jamaica, por exemplo, houve negociações com o poder colonial que resultaram em acordos mais longos. Mesmo com a queda de Macaco, em 1694, e o assassinato de Zumbi um ano depois, Palmares ainda continuou por mais 20 anos. Existiam outros líderes quilombolas importantes nesse período, como Mouza e Camuanga. Esses fatos ainda conhecemos pouco. Provavelmente não há documentos novos a serem descobertos, mas precisamos, sim, fazer novas perguntas e interpretações sobre esse episódio. 

Cena de Cumbe, HQ com episódios passados durante o período da escravidão no Brasil. (Divulgação).

O quanto da tua própria história é conscientemente colocada nos teus trabalhos?

No meu caso é difícil dimensionar o quanto exatamente de mim está na história, mas com certeza tem muito. Construímos personagens a partir das nossas experiências, do nosso entorno. Além disso, é preciso pontuar que na história do Brasil, personagens negros, ainda mais no período colonial, são apresentados como secundários e terciários nas narrativas. É muito difícil você ver essas pessoas como sujeitos de suas ações, como indivíduos inteiros. 

Essa estratégia de apagamento relaciona-se à história do negro no Brasil, onde não é permitido que essas pessoas tenham uma representação complexa e muito menos reconhecimento. E qual o resultado disso? Naturalizar a sub-cidadania das pessoas negras e pobres ainda hoje. Essa naturalização alinha-se com o encarceramento em massa de uma juventude negra periférica que, quando não está presa, é tratada como ameaça e mesmo assassinada. Mas isso não sensibiliza grande parte da nossa população. Daí a importância de criar personagens negros que tenham complexidade, demonstrem afetividade. Afeto este que sempre foi negado em nossa história. Não podemos ter representações mais complexas, dentro dessa lógica, porque tudo isso te torna humano. 

E o racismo opera na lógica de negar a humanidade dos outros.

Cena de Cumbe. (Divulgação).

A maior parte do que foi criado sobre o imaginário do negro no Brasil é uma construção de pessoas brancas. Você sente em algum momento, enquanto artista negro, uma sensação de responsabilidade em empoderar outros jovens artistas negros a ocuparem os espaços de criação de imaginário?

Procuro fazer as histórias dialogando com minhas experiências e com o máximo de liberdade possível em termos de narrativa. Ao mesmo tempo, sei que estou inserido dentro de um universo social e cultural. Militei durante um tempo em alguns grupos negros. Meu trabalho, acho, tem muito dessa experiência. Principalmente depois de Cumbe (2015), encontrei leitores muito interessados nesse universo. Tenho feito algumas oficinas por aí e encontrado artistas novos que acabam vendo nesse trabalho uma referência.

Me interessam histórias que sejam significativas pra pensar nas possibilidade de um pensamento crítico sobre o que é ser negro e ser brasileiro nesse país. Esse imaginário do que é ser negro foi elaborado quase sempre por e para pessoas brancas. Se a gente for pensar no público negro lendo literatura, e especificamente literatura negra, isso é mais recente. No entanto, hoje esse público pode influir no debate público, como aconteceu com a Flip. Considero imprescindível ter autores negros produzindo obras sobre universos negros e sobre outros grupos, não negros. 

Por outro lado, não criamos essas histórias em um campo neutro. Vamos precisar discutir e dialogar com outras pessoas, autores e leitores, sobre essas representações. E é fundamental que autores negros também façam parte desse debate. 

Na história do Brasil, personagens negros são apresentados como secundários e terciários nas narrativas, é difícil ver essas pessoas como sujeitos de suas ações.

Tem muito de montagem de cinema no teu trabalho. Em Encruzilhada, chegam até a aparecer aquilo que, imagino, sejam algumas referências dos tipos de filme que te atraem. De que forma a linguagem cinematográfica passa pelo teu trabalho?

Aprendi a contar histórias a partir do cinema. Primeiro devido a influência do amigo Kiko Dinucci. Além de músico, ele é cineasta e me apresentou muitos filmes e escritores. Depois, aprendi a desenhar luz e sombra vendo obras do Cinema Novo e do neorrealismo italiano. Eu pausava o filme pra desenhar imagens em preto e branco. Desse modo, acabei aprendendo a contar histórias lendo roteiros de cinema. Sempre tive um fascínio muito grande pela forma de contar narrativas com imagens. Quando elaboro uma história, primeiro realizo o roteiro, depois o esboço das páginas e finalização. Muito do roteiro inicial muda nesse processo. Gosto de prestar atenção no ritmo das imagens, em como funciona esse encontro de uma cena com outra.

Existe uma visualidade muito particular do desenho em preto e branco e queria que você falasse mais sobre essa tua opção estética.

Meu desenho talvez não seja algo próximo daquilo que se costuma ver nos quadrinhos. Gosto bastante de trabalhos em preto e branco e me aproximei de artistas como o (Sergio) Toppi, o (Lorenzo) Mattotti, o (Alberto) Breccia, Taiyo Matsumoto etc. Todos eles foram referências fortes. Me fascinam as infinitas possibilidades do jogo de luz e sombra. E considero que ainda estou aprendendo a lidar com isso. 

Esse imaginário do que é ser negro no Brasil foi elaborado quase sempre por e para pessoas brancas.

Desde o Noite Luz, passando pelo Encruzilhada e chegando ao Cumbe, existe uma estrutura episódica nas tuas histórias. Mas mesmo dividindo a narrativa em capítulos que são aparentemente independentes uns dos outros, há também uma energia que todas compartilham. Há uma preocupação sua em manter essa energia circulando? E, segundo, Angola Janga mantém essa estrutura?

Todos os livros que fiz foram um processo de aprendizado tanto de desenho quanto de narrativa. Até hoje tenho um interesse muito grande pelo formato Conto na literatura. Gosto de histórias longas também, mas aprecio aquelas na qual cada capítulo funciona quase de maneira independente. No caso de Angola Janga, trabalhei com uma única história, mas dividida em capítulos. Angola Janga é um pouco diferente dos outros livros, justamente porque se assemelha mais a um romance. De qualquer forma, me interessam histórias que funcionem mais como um mosaico e menos como algo linear, de começo, meio e fim. Gosto de imaginar que a leitura e compreensão do todo é feita pelo leitor também. 

Quis fugir de arquétipos sobre escravidão, evitar histórias que colocam os personagens como pessoas passivas.

Com frequência, tanto eu quanto Dandara Palankof (duas das editoras da Plaf) somos chamadas pra falar sobre a “mulher nos quadrinhos”, porque o ambiente é sobretudo masculino e porque, sendo mulheres, talvez esse seja o tema que “nos cabe”. O quanto você é chamado para debater sobre “o negro nos quadrinhos”, ou esse é um debate que ainda passa longe das pautas desse universo?

Tem duas coisas que valem ser citadas aí. Primeiro, acredito existir uma certa ausência desse debate (sobre a negritude) dentro do universo das histórias em quadrinhos. Segundo, não tenho problema nenhum em falar sobre isso. Este tema perpassa minha obra. Porém, é preciso tomar cuidado pra não cairmos dentro de certas formas e discursos em que você somente pode falar a partir daquele local. São alguns perigos que temos que enfrentar, seja sobre a presença negra nos quadrinhos, quanto com a questão de gênero, imagino. Podemos falar sobre isso, mas podemos também falar sobre outras coisas, partindo de diferentes perspectivas. O espaço da arte é justamente aquele que permite você se colocar no lugar do outro. Mas, claro, pra se colocar no lugar do outro é preciso ter responsabilidade e profundidade.

Frantz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas escreve em certo momento: “O entusiasmo é, por excelência, a arma dos impotentes. Daqueles que esquentam o ferro para malhá-lo imediatamente. Nós pretendemos aquecer a carcaça do homem e deixá-lo livre. Talvez assim cheguemos a este resultado: o Homem mantendo o fogo por autocombustão.” Somente com entusiasmo você não consegue passar mais de dez anos dedicados a fazer uma HQ, como é o caso de Angola Janga. Você acredita nessa ideia de que é preciso sempre se manter em autocombustão para fazer as coisas acontecerem?

Autocombustão… O Fanon é incrível, né? Ele foi uma referência quando comecei a conhecer intelectuais  negros. O modo dele perceber e desnudar a realidade, tão camuflada por códigos e símbolos, me fascina. Um projeto longo como Angola Janga só é possível se você tem muita paixão durante todo esse tempo, talvez seja isso que o Fanon chama de autocombustão. Cada vez que lia um pouco mais sobre Palmares, ia entendendo os meandros da história e me apaixonava um pouco mais por ela. O que fiz foi uma ficção com base em fatos históricos. Espero que ela nos ajude a entender melhor como o Brasil, de séculos atrás, ainda está presente hoje, em muitos sentidos.

Angola Janga está à venda pela Veneta. O livro também ganhou edições em francês (pela Ça et La) e em inglês pela Fantagraphics.

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