Resenha: canta as injustiças sociais e o caos de SP em novo disco
NOTA8.5

O terceiro álbum do grupo paulistano Aláfia é um manifesto sobre a relação conturbada de São Paulo com seus habitantes e visitantes. É também um diário de nossos dias, com sonhos, raivas, revoltas, alegrias, violências e tristezas. Nenhum disco reflete tanto o caos de SP – e por conseguinte de qualquer metrópole – do que esse novo álbum do Aláfia. Com participações de nomes como Tássia Reis, Luísa Maita e Raquel Virgínia e Assucena Assucena, de As Bahias e a Cozinha Mineira, o trabalho aprofunda ainda mais as pesquisas das diversas sonoridades da música negra brasileira, mas com uma pegada ainda mais eletrônica.

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Em seu disco mais político até aqui, o Aláfia chega sem rodeios para tratar das diversas mazelas que atingem em cheio as pessoas no Brasil de instabilidade democrática. Tanto que a primeira faixa já chega falando de violência policial e manipulação da mídia. Com uma batida funkeada temos agora em registro o horror que vive a população das periferias e manifestantes. A música-título dá o tom raivoso que perpassa todo o disco, um sentimento de urgência de quem pede uma trilha sonora para esses tempos loucos que correm.

Já outras canções traduzem em sons questões bem típicas da capital paulista. “Gentrificação” diz “em uma volta pela vila não sei se vou vê-la”, deixando claro a descaracterização que marca tantas cidades brasileiras por conta da demanda da especulação imobiliária e do capital. “Liga nas de Cem”, lançada como single antes do disco completo sair, é denúncia da exclusão social e das tensões que existe hoje entre as elites da cidade e o cidadão socialmente excluído. “Não gostam da gente/Lamento o ódio do inimigo/ Agora nóis é só curto-circuito”, diz a letra, que solta ainda uma alfinetada para os batedores de panela dos bairros de classe média. A faixa é cantada em tom lento, levado pela guitarra de Pipo Pegoraro, o que deu à canção uma dualidade entre a sagacidade típica do rap e o lamento pop. É puro embate.

São Paulo Não é Sopa encontra paralelos em Chico Science, que assim como o grupo, também cantou os paradigmas das injustiças sociais do Recife, mas ao mesmo tempo deu brilho para as contradições da cidade. Aláfia fez um clássico sobre o São Paulo e, fugindo de um olhar mais óbvio, traduziu o horror, a beleza e a complexidade da capital paulista. E fez isso com um manejo muito bom de diversos estilos, passando do rap mais tradicional até os elementos jazzísticos (“Saracura”) até o choro e samba-rock, como em “Agogô de Cinco Bocas”. A bela voz de Xênia França, uma das melhores cantoras da geração atual, torna o discurso ainda mais contundentes.

O disco segue repleto de ótimas ideias ao longo das faixas, mas perde-se um pouco no final. “O Primeiro Barulho”, que também já tinha sido lançada, fica um tanto deslocada dentro do contexto mais amplo do disco.

São Paulo Não É Sopa irá se tornar o melhor registro para entedermos os paradigmas que vivemos hoje, todo nosso corre, os perrengues, as lutas e a raiva. Sem medo de se insurgir está aí para inspirar o revide.

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