, do grupo Totem, é um dos destaques da programação da Aldeia Yapoatan2019, Mostra de Artes de Jaboatão dos Guararapes, produzida pelo Sesc–PE. Retomada será exibida no Teatro Samuel Campelo, em Jabatão dos Guararapes, nesta sexta (27), às 19h30. Os ingressos custa R$ 10. Fruto da Pesquisa Rito Ancestral Corpo Contemporâneo, que possibilitou residências artísticas junto aos povos Kapinawá, Xukuru e Pankararu, o grupo mergulhou nos rituais em busca de uma experiência estética transcendente, que foi levado aos palcos.

O espetáculo Retomada fala das vozes que fortemente persistem ecoando sobre a terra arrasada. Com sua poética polifônica, o Totem corporifica a sacralidade das terras indígenas e manifesta o sentimento de resistência dos povos. O corpo contemporâneo do grupo é envolvido na força da alma coletiva, que séculos de colonização não conseguiu anular, por ter sua vitalidade ancorada na ancestralidade. A terra sagrada pela qual se luta, é o mote desse trabalho, uma ode à mãe geradora e mantenedora de tudo, onde o grupo manifesta sua identificação com o sentimento de resistência. Sendo este um ato ritual único, onde os corpos entoam a força coletiva e invocam as vozes silenciadas nas páginas do tempo. Uma encenação que simboliza o espírito coletivo, o sentimento de pertencimento, o direito ao bem comum, a força combativa pela terra sagrada e a conexão com a ancestralidade.

Integrando assim o público ao ritual, à consagração das conquistas, à vida dedicada à paisagem real e imaginária, onde se encontram e se mantém os saberes originários. A energia da atmosfera sagrada se faz presente, formando um corpo expandido entre o físico, o sonoro, o espaço circundante e a metafísica, uma obra cosmológica, trazida à cena contemporânea através do contato com forças ancestrais. “A montagem corporifica a sacralidade das terras indígenas, sentida no ato ritual e na reverência de espírito aguerrido que tem seu povo pela sua terra”, diz a sinopse da peça. A cena ritual criado pelo grupo, não representa ou reproduz rituais vividos nas aldeias. Mas, através de sua poética, o Totem manifesta sua identificação com o sentimento de resistência.

“Uma encenação que simboliza a alma coletiva, o sentido de pertencimento e o direito ao bem comum. Integrando assim o público ao ritual, à consagração das conquistas, os saberes originários. A energia da atmosfera sagrada se faz presente, formando um corpo expandido entre o físico, o sonoro, o espaço circundante e a metafísica, uma obra cosmológica, trazida à cena contemporânea através do contato com forças ancestrais”, diz o texto do diretor Fred Nascimento.

Fizemos um perfil do Grupo Totem. Veja também o nosso dossiê sobre o Teatro Pernambucano nos dias de hoje.

Uma das principais características do trabalho do é sua musicalidade, sua sonoridade. A grande maioria das suas encenações performáticas teve e tem música ao vivo, composta para seus espetáculos e performances. A música do Totem é instrumental com pitadas experimentais e improvisação, uma música brasileira com influências que passam pelo rock e o free jazz. Composta com elementos que vem das nossas raízes, misturados com a música do mundo, uma fusão de sons.

Durante a história do grupo Totem, a banda do Totem já vem fazendo apresentações sem a performance cênica. Em 12 de maio de 2019, a convite do SESC Pernambuco, a Banda do Totem abriu o ArticulaSons, como parte da Mostra Sonora Brasil, com um repertório composto por músicas dos espetáculos Retomada, baseado na luta pela terra e em rituais indígenas, vencedor dos prêmios de melhor espetáculo, (categoria dança) melhor iluminação e melhor trilha sonora no Janeiro de Grandes Espetáculos de 2018, o show trás também músicas do espetáculo Ita e Ita in Process, de pegada bem mais jazzística, músicas do espetáculo Ele, Artaud!, e do filme experimental/videoperformance GeoPoesis.

A Banda do Totem é formada por Fred Nascimento – percuteria e efeitos, Cauê Nascimento – guitarra, e Patrício Rodrigues – bateria, mais os convidados Mário Sérgio de Oliveira, guitarrista, que tocou no Totem durante muitos anos, autor da trilha de Ita eIta in Process, Gustavo Vilar nas flautas e percussão, músico de Retomada, mais Alexandre Salomão e Zé Diniz.

Presente no repertório do grupo desde 2011, a performance Renascentia Escarlate vem se apresentando nos mais diversos ambientes ao ar livre, intervindo no espaço público e provocando os espectadores com sua proposta ritualística e impactante. O trabalho inspira-se no mito da fênix, a ave sagrada que renasce das cincas, símbolo de esperança e renascimento, realizando um ciclo de vida-morte-vida, enquanto transita entre um corpo de fogo vivo e cinzas, alçar voos e nascimento. A performance “Renascentia Escarlate” é um ritual no qual se reorganiza em gesto e potência, mortes internas, uma simbologia sobre a vida e seus ciclos.

O livro “Grupo Totem: a infecção pela performance e a encenação performática”, contextualiza os anos 1970, o Movimento Udigrudi, a psicodelia, o aparecimento das primeiras manifestações de performance nos anos 70, os grupos de teatro experimentais, os primeiros grupos infectados, o movimento de teatro alternativo nos anos 80. Os espaços não convencionais, principalmente o Abraxas, em Olinda, berço do Trem Fantasma (percussor do Totem), um verdadeiro templo para a arte alternativa e marginal dos anos 80.

O livro trás também um mapeamento de performers, grupos, eventos, festivais e espaços (inclusive institucionais), que abriram espaço para manifestações performáticas. Esse mapeamento inclui performers de todas as linguagens, do teatro,dança, artes visuais, poetas. Além de desenhar um panorama dos diversos campos que a performance atinge, os diferentes tipos de performance, com ênfase na infecção do teatro pela performance.

Em relação ao Totem, Fred Nascimento fala da importância de AntoninArtaud para o grupo, a contaminação começa com ele, e de como a influencia de suas ideias está presente nos espetáculos e performances do Totem. Fred nos revela os principais princípios, processos de criação e características do trabalho do grupo, como a busca do ator-performer, a ênfase no corpo, a mistura de linguagens a quebra de hierarquia, a organização dos elementos, a encenação performática.

Por fim ele disseca os espetáculos Ita e Caosmopolita, ambos tem o corpo como motor da obra, ao longo do capítulo, Fred Nascimento vai tecendo ponto a ponto , passo a passo, como se deram as pesquisas, as composições, os princípios musicais e plásticos. Ita fala da busca da origem e do desenvolvimento da vida, do corpo animal. Já Caosmopolita mergulha no caos urbano, do corpo cercado pela violência, das suas neuroses, seus medos.

Um livro necessário, que joga luz sobre o movimento de teatro alternativo, a história da performance em Pernambuco, e principalmente sobre o pioneirismo do Totem e sua influência e importância inaugural para a cena teatral e da dança performática de Pernambuco e do Nordeste.

Grupo Totem na Aldeia Yapoatan – Sesc pernambuco

Sexta-feira 27 de setembro
“Retomada” às 19:30, Teatro Samuel Campelo
Domingo 29 de setembro
17:30 – Show da “Banda do Totem”
18:30 – “Renascentia Escarlate” – performance
19:00 – lançamento do livro “Grupo Totem: a infecção pela performance e a encenação performática” de Fred Nascimento.
Local: Teatro Samuel Campelo – Praça Nossa Sra. do Rosário, 510 – Centro, Jaboatão dos Guararapes – PE.

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