Seguindo Todos os Protocolos: Transando com máscara e álcool gel

Pandemia, isolamento e desejo são os temas do novo filme do cineasta pernambucano Fabio Leal

Seguindo Todos os Protocolos: Transando com máscara e álcool gel
4.5

Seguindo Todos Os Protocolos
Fábio Leal
BRA, 1h14, 18 anos. Distribuição: Vitrine Filmes.
Com Fábio Leal e Marcos Curvelo.
Em cartaz nos cinemas

A pandemia da covid-19 ainda não acabou, mas, felizmente, graças às vacinas, estamos distantes dos seus momentos mais terríveis quando, ainda sem vacinas e com medo de sermos contaminados, ficávamos presos em casa isolados do resto do mundo. Contudo, mesmo quem conseguiu escapar do vírus, muitas vezes, ainda guarda na memória lembranças daqueles dias conturbados e sente que, de alguma maneira, seu olhar sobre o mundo ou sobre as pessoas se transformou. E esse estado de coisas atingiu sobretudo as nossas relações pessoais e amorosas. 

Relacionamentos, como sabemos, são complexos, ainda mais quando além das vicissitudes usuais, máscaras, frascos de álcool gel, face shields e o cuidado para o parceiro não ser um agente de contaminação passaram a ser itens imprescindíveis na garantia da sobrevivência.  E é sobre isso que o diretor, roteirista e ator Fábio Leal nos convida a refletir com o seu novo filme, o longa Seguindo Todos os Protocolos.

Fábio Leal é atualmente um dos realizadores mais instigantes do audiovisual pernambucano. Estreou na direção com o pé direito no delicioso curta O Porteiro do Dia (2016), uma fábula romântica sobre um jovem de classe média que se envolve com o porteiro de seu prédio e vive uma tórrida relação, mesmo o porteiro sendo casado e pai de família.  Em 2018, Leal escreveu, dirigiu e atuou no premiado curta Reforma, drama urbano sobre um rapaz que vive de forma bem livre sua sexualidade se relacionando com diversos homens, mas quando ajuda uma amiga na reforma do seu apartamento lhe revela estar insatisfeito com seu corpo gordo. E no ano passado ele realizou, em parceria com o cineasta Gustavo Vinagre, o documentário Deus Tem Aids. 

Além das artimanhas para transar sem pegar Covid, o filme aponta para algo mais inquietante: como podemos manter nossa humanidade diante do medo da morte. (Foto: Divulgação).

Uma característica dos filmes de Leal é encarar os temas que aborda com a maior naturalidade possível. Eles não fazem concessão aos limites que normalmente vemos em algumas obras com uma forte pegada homoerótica. Sua câmera não tem melindres nem olhar pudico, mostra as coisas como elas são. O mesmo é válido para os diálogos, sobretudo os que estão na boca dos personagens que ele próprio interpreta. Suas falas são contundentes, inquisidoras, sinceras e mescladas a uma certa dose de ironia.

Seguindo Todos os Protocolos aposta nesta sinceridade. O filme é uma espécie de ficção documentário, pois ao viver ele próprio o protagonista Francisco, um homem assustado com o vírus da covid-19 trancado no seu apartamento, Fabio confunde-se com o personagem. Não é difícil imaginar que ele, como milhões de pessoas ao redor do mundo, agiu da mesma forma: vivia se informando sobre tudo que era noticiado sobre a pandemia e tomava precauções das mais simples às mais mirabolantes para evitar o contágio, principalmente quando o desejo de beijar, abraçar e trepar com alguém podia ser a assinatura da sentença de morte se as determinações do estado de quarentena não fossem seguidas. 

O filme de Leal apesar de situar sua narrativa num quadro temporal que já ficou para trás, não perdeu e nem perderá sua atualidade. As vivencias experimentadas durante a pandemia estarão entranhadas em nossa memória ainda por muito tempo. Ao ver Seguindo Todos os Protocolos é impossível não se identificar com o que estamos testemunhando, ainda mais se o espectador for gay. Embora as situações retratadas na trama não sejam exclusivas para quem integra a comunidade LGBTQIA+, há no filme, e na forma de externar e questionar os afetos, peculiaridades caras ao universo homoafetivo.

Longa feito com orçamento de um curta, filme chama atenção para o apuro estético. (Divulgação).

Os embates vividos pelo personagem de Francisco estão fundados no dilema: como satisfazer os desejos do corpo se não é possível tocar na pele, na boca, no pau ou no cu do parceiro de transa? E ele vem à tona depois que Francisco rompe com o namorado de forma remota, via conferência de vídeo. Sem amor e sem sexo, para não perder o juízo de vez só resta a Francisco enfrentar esse desafio. Ele parte, então, em busca de outros corpos que aceitem a impossível missão de fazer sexo sem riscos de contrair a covid-19.

Filmado em plena pandemia, Fábio e a pequena equipe de atores e técnicos, conseguiram um feito extraordinário para uma obra cujo orçamento veio de um prêmio para rodar não um longa, mas um curta metragem. Embora quase todas as cenas se passem dentro do apartamento do protagonista, as imagens, ao mesmo tempo que reforçam a impressão de isolamento, graças a mise-em-scène e à iluminação, não se tornam monótonas ou repetitivas. Esse apuro estético, diga-se de passagem, entrelaçado com as situações dramáticas que vão se desenrolando é um dos méritos de uma obra mais que oportuna.  

Embora num primeiro momento só vejamos em Seguindo Todos os Protocolos uma espécie de odisseia de artimanhas e parangolés para transar e não se contaminar, algo que chega até a ser engraçado, o filme aponta para algo muito mais inquietante, que é como podemos manter a nossa liberdade e não perder a nossa humanidade diante da ameaça e do medo da morte. Assim, não seria desproposital, estabelecermos uma analogia com os dias que correm, onde fascismo, violência social, vigilância, preconceito, discriminação e a pulsão de morte estão na ordem do dia. O isolamento necessário ao qual fomos submetidos não deve, todavia, como mostra o filme, impedir que continuemos a perguntar como agir para manter o amor, a solidariedade e o encontro afetivo com os que nos cercam.

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