7.5

O retorno de Selena Gomez demorou, mas chegou. Depois de um hiato de cinco anos, quando lançou Revival, ela retorna com Rare. Os fãs já estavam ansiosos, mas também cientes de que a cantora só voltaria a mostrar um novo trabalho quando estivesse de bem consigo mesma diante a alguns problemas pessoais, como a depressão e o transtorno de ansiedade.

Em 2018 voltamos a ver Selena Gomez de volta a música, mas como convidada. Primeiro, na faixa “Taki Taki”, de DJ Snake, com participação do porto-riquinho Ozuna e da rapper Cardi B. Além disso, ela também lançou o single “Back to You”, para a série 13 Reasons Why, da Netflix, da qual ela é produtora executiva.

Rare ecoa sons que falam das dores de alguém que vem passando por problemas emocionais, mas também fala sobre dançar com alegria diante deles. O álbum apresenta um pop suave com um quê de R&B e uma mensagem positiva. Mas o interessante mesmo é que Rare surge como um novo capítulo na vida de Gomez, de mais identidade sonora. A intérprete de Os Feiticeiros de Waverly Place até aqui não se destacava pelo alcance ou variação vocal, mas o que vemos agora é personalidade, o que a torna distinta de tantas outras performers.

As músicas são dispostas de forma coesa e o álbum, no geral, é bem coerente com a proposta de dançar e falar sobre a vida. Destaco, principalmente, “Dance Again” e “Look at Her now”. As músicas têm uma forte mensagem de autoafirmação. Na primeira, por exemplo, mostra um sujeito que está pronto para dançar novamente “Feels so, feels so, feels so good to dance again”, o que nos leva a crer que, por algum motivo, algo ou alguém a impedia de dançar, isto é, de ser feliz. Essa ousadia é mais escancarada na segunda, em que ela bota sua cara na frente do jogo e diz em alto e bom sono “olhe pra ela agora”.

Essa proposta de trabalhar o tema da superação torna Selena uma das artistas mais relacionáveis do pop atual, uma vez que sua vida pessoal e seus problemas com a saúde mental foram abordados constantemente pela mídia.

Ouça mais novidades musicais na nossa página Novos Sons!
Leia mais críticas de novos discos aqui na Revista O Grito!

Ao longo das suas 12 faixas, Selena Gomez trabalha numa dinâmica confortável para seus vocais, e também para seu emocional. No primeiro single divulgado pela cantora, que foi número um nas paradas americanas, “Lose you to love me”, tem um arranjo intenso e uma melodia intimista que, quando chega no refrão, encoraja-se a gritar. Segundo a própria canção, foi preciso se perder para se encontrar novamente. Vale lembrar, sobretudo, que Selena passou por momentos difíceis nos seus antigos relacionamentos, principalmente o com o cantor Justin Bieber.

Em “Vulnerable”, Selena canta sobre a fragilidade, mas que a encara de forma positiva. Afinal, quem não é vulnerável em algum momento da vida? Nessa faixa, Gomez solta vocais picotados e cheios de ecos, porém, fortes.

Se formos elencar os pontos baixos do álbum temos “Ring”, que tem um quê de latinidade, mas destoa bastante do restante do álbum. Soa, digamos, muito forçado, com uma proposta muito batida e pausterizada de ritmos latinos. Duas outras são bem tímidas e são, justamente, as que Selena faz parceria: “Crowded Room”, parceria com o rapper 6LACK e “A Sweeter place”, ft. Kid Cudi, que tem um tom bastante esperançoso.

“Rare”, faixa-título do álbum, é, sem dúvida, uma das mais bonitas. Com um tom futurístico, tanto na música, como no clipe, Selena fala sobre um futuro em que se via “queimando torradas” e envelhecendo juntos. A melancolia dessa balada é algo que a torna muito contundente.

Rare (2020) é, sem dúvida, o melhor e mais sincero trabalho de Selena Gomez na sua carreira como cantora. Ele contagia, inspira, promove reflexão e, sobretudo, mostra que a música, a arte, é uma grande terapia.

SELENA GOMEZ
Rare
[Interscope, 2019]

Leia Mais
Crítica-HQ: Grama e a memória viva do horror