Make-ups deslumbrantes, figurinos ousados e criativos, glamour, fantasia e o desejo de brilhar nos palcos, nas pistas das boates e clubes, ou simplesmente nas ruas, são imagens que estão associadas ao universo das drag queens, uma arte performática que há décadas causa rebuliço pelo mundo afora. Embora boa parte dos artistas que abraçam esse tipo de expressão artística estilize elementos do universo feminino, a arte de transformação e criação de uma personagem não significa necessariamente uma orientação sexual específica. Mulheres, homens e pessoas LGBTIA+ podem ser drags e podem se metamorfosear no que elas quiserem e bem entenderem. E foi com esse espírito de descoberta e curiosidade que nos lançamos na oficina de promovida pelo Festival da Diversidade Sexual e de Gênero do Recife – o . Quer saber como foi? Segue o fio.

Prelúdio

Não vou negar que já na primeira oficina de drag queen oferecida pelo Recifest em 2014 me passou pela cabeça o desejo de fazê-la. Nos tenros anos da juventude, nas festas com minha turma da época, foi-não-foi, fazia performances sensuais imitando o cantor Ney Matogrosso. A caráter, dublava “despeerta América do Suuul” ou Coubanakan misterioso país del amor” e era sempre um sucesso. Depois, fui fazer teatro de rua, virei jornalista, acadêmico, cineasta e esqueci a brincadeira. 

No decorrer dos anos, porém, de vez em quando, episódios ocasionais me colocaram na rota do mundo drag: um namorico com um gaúcho que morava em São Paulo e estava iniciando a carreira como drag queen (depois ela ficou famosa, aparecia em programas de TV e foi até capa de revista);  os alunos drag queens de quem me tornei amigue: Shayane Thompson, Cassia Blue,  Gilka Brechó; a pesquisa sobre o grupo de Teatro Vivencial; o filme que realizei em homenagem a Elza Show; a ligação transcendental cinematográfica com o ator Elpídio Lima, o Piu Piu, transformista do Teatro Marrocos imitador de Carmem Miranda e Sarita Montiel, por mim transformado em documentário; e, por fim, a produção do filme sobre a travesti Consuelá, atualmente em fase de montagem.  

Assim, quando começaram a aparecer no Instagram, as chamadas para a oficina no Recifest, me perguntei: “se todas essas figuras singulares e queridas se transformam nesses personagens tão bacanas que eu gosto e admiro, por que eu também não posso ser uma drag queen?  Nesses tempos tão complexos de pandemia e obscurantismo político, me jogar numa experiência libertadora não é de forma alguma uma má ideia. E assim foi feito, preenchi o formulário de inscrição e enviei.

“Quem domina a arte de se maquiar, certamente é um gênio”. (Foto: Alex Figueirôa).

Primeiro dia: descobrindo a drag em mim

Ao saber que fui selecionado para participar da oficina de drag queen ministrada por (Zécarlos Gomes) senti um medinho. Mesmo sendo on-line, por conta da pandemia da covid-19, passei a pensar como seria uma oficina de drag? Seria igual a série RuPaul’s Drag Race? Será que na hora H eu ficaria intimidado em colocar o meu corpo e meu rosto a disposição de uma criatura desconhecida que se apossaria de mim?

“Existe um arquétipo da drag, mas é importante desconstruí-lo. Cada um tem que descobrir a drag que carrega consigo”

Para completar o drama, no grupo de WhatsApp, criado para a oficina, Sheyla encaminhou a lista de maquiagem com todos os produtos necessários. Entrei em pânico. Alguns ingredientes não eram novidade: rímel, base, sombra, glitter; mas tinha um monte de pinceis (chanfrado, em leque), pó translúcido, iluminador, duo cake, etc., os quais nunca tinha ouvido falar. E com o comércio de cosméticos fechado como dar conta de tanta coisa? Felizmente meu analista deu uma ajudinha (na mente, não nos cosméticos) e cheguei na primeira aula tenso, mas sereno.

Às 19h30, da sexta feira 26, quando Sheyla se apresentou, no entanto, todas as caraminholas e receios evaporaram. Consciente de seu papel e de sua força como performer e de sua experiência em iniciar novas drags, apesar das limitações da tela do computador, Sheyla conversou com os oito alunos – cinco rapazes e três meninas – que por diferentes motivações – soltar o corpo, aprimorar a atuação como drag, assumir os seus desejos – estavam ali ávidos para descobrir os segredos de como se tornar uma artesã ou artesão da transformação corporal. Todes se apresentaram e uma energia bacana começou a rolar.

Sheyla Muller foi nossa mestra. (Divulgação)

Sheyla, apesar de reconhecer o mérito e o impacto na arte drag promovida por RuPaul, lembrou que atuar como drag é quebrar os padrões, inclusive os estereótipos. “Existe um arquétipo da drag, mas é importante desconstruí-lo. Cada um tem que descobrir a drag que carrega consigo”. A partir da sua própria vivência como ator, ela demonstrou o quanto, hoje, performar neste campo é um ato de resistência às imposições sociais, um ato político e também de auto aceitação. “É preciso, em primeiro lugar interromper a homofobia interna, como também outros preconceitos – gordofobia, transfobia –, e passar pelos lugares de dor e negação que nos foram impostos, para superá-los e alcançarmos a nossa liberdade de expressar-se”. 

A primeira noite foi, portanto, de conversas para quebrar a timidez e descobrir o porquê de estarmos ali. A distância, por conta do modo remoto, não impediu a interação. Sheyla em Santos, alguns no Recife, eu na Ilha de Itamaracá, Hanna em São Paulo ou André Angelina em Cruzeiro, no interior de São Paulo, compartilhávamos, de alguma forma, o mesmo sentimento de alegria por dizer não aos nossos próprios medos. “As drags hoje estão em todos os lugares! Nos palcos, nos filmes, no YouTube, no Instagram”, arrematou Sheyla.

Segundo dia: “liberem o corpo e coloquem ele para falar”

Os preparativos do sábado começaram muito antes das 19h30. Na noite anterior, Sheyla pedira que na segunda aula tivéssemos um batom e um lençol em mãos. Eu ainda estava atordoado sem nenhuma ideia de como iria encontrar os produtos da lista de maquiagem. Nem batom eu tinha. Depois de uma rede de conexões telefônicas, consegui descobrir uma moça que vendia cosméticos em Itamaracá. O salão de beleza dela estava fechado, mas para uma compra sem aglomerações ela abriu uma exceção. Acompanhado do meu amigo Fernando de Albuquerque, seguimos para o salão e não é que ela tinha tudo que estava na lista? 

Compras feitas, entrei no Skype para a segunda aula mais confiante.  Bruno, Anderson, Lucas, André Angelina, Juliana, Thayná, Hanna, estavam animadíssimos. Sheyla ampliou as reflexões da noite anterior e mesclou conversas com movimentos corporais. Entre exercícios para soltar o corpo com músicas que foi de “Xiquexique”, de Tom Zé a hits de house music, algumas novas questões foram abordadas, dentre elas o processo de construção da personagem drag que cada um gostaria de representar. “Temos que buscar uma motivação em nosso interior. A persona que vai nascer está dentro da gente. Lembrem que a drag está em um lugar de potência e faz parte do processo de criação encontrar esse poder contra os códigos que nos são impostos”, argumentou Sheyla incisiva. Assim, mesmo sozinhos, cada um em suas casas, por meio da dança seguimos as sugestões de nossa instrutora: “liberem o corpo e coloquem ele para falar”. 

Depois rolou um momento terapia. Confesso que sou meio cismado com essas técnicas, mas como quem está na chuva é para se molhar, entrei no clima. O jogo foi concluído com cada um pegando os lençóis, fazendo nele nós que representavam nossos medos. Depois ao som da música “Ongotô”, de Caetano Veloso e José Miguel Wisnick, fomos desatando esses nós, uma forma simbólica de se desembaraçar dos obstáculos que poderiam impedir a busca de nossos personagens. Fiquei rodopiando pelo meu quarto ao ritmo da melodia e imaginando coreografias com o lençol dos nós desfeitos. Por fim, pegamos os batons e fizemos pinturas livres em nossos rostos. Para encerrar, Sheyla nos lembrou que para o final do curso teríamos que criar uma performance e gravá-la em vídeo. Lembrei da cara dos meus alunos quando passo alguma atividade mais complicada para execução. Com um “eu não vou conseguir” vagando pela minha cabeça, nos despedimos ansiosos pelo dia seguinte quando iríamos aprender a se maquiar, um ponto chave na arte drag.

Terceiro dia: atropelos da make

Sempre pensei que fazer maquiagem fosse algo difícil e que exige muita habilidade. Mas depois do encontro do terceiro dia da oficina revi completamente meu conceito sobre as pessoas que se dedicam a esse ofício – incluindo as drags que fazem sua próprio make. Gente, vocês não têm ideia. Quem domina a arte de maquiar pode se considerar um gênio. Só a preparação da pele, a cobertura da sobrancelha e esculpir os traços do rosto me deixaram em polvorosa. Foi luta, viu? No final saiu, mas tenho cá minhas dúvidas quanto ao resultado. Sheyla, porém, sempre gentil e positiva, não deixou a peteca cair. “Não se preocupem. Essa é a primeira vez. Quem prosseguir verá que a próxima vez já conseguirá fazer melhor”. 

A mesa onde coloquei o material estava um caos, cola em bastão, pincéis, cremes, pós, tudo espalhado e eu louco. De vez em quando dava uma olhada na tela do computador para ver como os demais estavam se saindo e me consolou ver que todes, em maior ou menor grau, também enfrentavam alguns atropelos. No grupo do Whatsapp, Sheyla compartilhava imagens com instruções e aos poucos a coisa foi engrenando. Levamos tudo numa boa, e acabamos todes rindo das sobrancelhas que insistiam em continuar visíveis e dos contornos meio desajeitados. “A maquiagem que vocês irão fazer tem que acompanhar o estilo dos personagens que serão criados por vocês. Já pensaram neles?”. Silêncio mortal. Todos estavam ainda sem saber ao certo qual a drag que iria brotar em cada um. Pelo fato de estar no meio do mato em Vila Velha, eu oscilava entre criar uma personagem de estilo brejeiro ou algo mais urbano e contemporâneo. 

Quarto dia: drags vindo à tona

Se preparar a base do rosto já foi osso, a pintura dos olhos é que foi babado. O caos da noite anterior ressurgiu ainda mais poderoso. Mas, nada como a voz de quem sabe das coisas. O que Sheyla previu se concretizou. A segunda preparação do rosto já fluiu sem tantos traumas. Maquiar os olhos exige muita delicadeza e cuidado. Para mim foi ainda mais complicado por usar óculos. Sem eles não enxergo nada direito. Mais uma vez Sheyla, sempre atenta, deu um toque de otimismo: “é isso aí Alex, sua sobrancelha está perfeita”. 

Percebi que o resultado não tinha ficado lá essas coisas e estavam bem aquém, por exemplo, dos olhos desenhados por Tahyná e André Angelina, mas como não estávamos numa competição, muito pelo contrário, resolvi colocar uma peruca loura que tenho (daquelas de carnaval) e já me convenci que nem tudo estava perdido. Todes compartilharam o resultado final no grupo e não restavam dúvidas que as drags estavam se preparando para virem à tona. Antes de encerrar as atividades, Sheyla complementou as dicas, que já vinha nos dando a cada encontro, de como fazer os vídeos da performance de encerramento. “Sejam criativos, usem os elementos que vocês têm, improvisem, se não tiverem brincos, é só cortar um pedaço de papelão em forma triangular, aplicar glitter e colar na orelha. Trabalhem a luz, sejam vocês”. 

Quinto dia: “o importante é sentir-se feliz”

Acordei na terça-feira com as palavras de Sheyla reverberando na minha mente. E assim como um passe de mágica, o personagem surgiu: Galina Aleksandrova.

Inconscientemente (só depois de gravar o vídeo foi que notei os traços de semelhança) minha inspiração visual veio de uma pintura do expressionista alemão Otto Dix Retrato da Jornalista Sylvia Von Harden. Já o motivo musical foi fruto de umas taças de vinho compartilhadas com meu amigo Fernando no domingo. Fizemos uma viagem sonora por músicas antigas e ao me deparar mais uma vez com a gravação de Dalida com Alain Delon da canção “Paroles Paroles”, decidi: “é essa”. No decorrer das aulas, sobretudo as de maquiagem, percebi melhor os meus traços e trejeitos faciais. A idade tem um peso em nossas expressões. E o misto de inspirações referentes ao século passado me puseram à vontade com a minha drag. Lembrei o que Sheyla falou ainda no segundo dia: “o importante é sentir-se feliz”. 

Na noite da terça-feira o meu quarto transformou-se em um estúdio. Sem vestidos, sem sapatos de salto, decidi filmar meu número em plano médio. Uma hora inteira foi dedicada à maquiagem. Depois, com ajuda de Fernando (que se tornou um personagem importante nesse processo) montamos um cenário, estudamos a iluminação, pegamos o celular e depois de umas sete tentativas conseguimos o resultado que eu queria. O vídeo é um plano sequência onde investi na interpretação, na gestualidade, nas expressões.

Não é nenhuma obra-prima, mas foi muito divertido fazer tudo isso. Aplacou um pouco a tristeza por tantas mortes pelo Brasil afora, acalmou a tensão pelo perigo que estamos enfrentando de acordar no meio de um regime autoritário, me fez conhecer um grupo de pessoas lindas e talentosas e mostrou que, às vezes, podemos fazer o que queremos. Obrigado Sheyla, obrigado Recifest.

Quem quiser ver um clipe com os vídeos feitos pela oficina, basta acompanhar o encerramento do Recifest às 19h desta quarta (31) pelo canal do evento no YouTube. 

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