antilope

A entrevista abaixo faz parte de uma nova série aqui da Revista O Grito! com o desafio de saber mais sobre publicações sobre quadrinhos no Brasil. Quais revistas, sites, podcasts, etc, contribuem para aumentar o debate sobre a produção brasileira e o mercado de HQs? Nesta primeira parte um papo com o pessoal que edita a , que acaba de lançar nova edição.

Falar de quadrinhos como uma linguagem artística única, a exemplo de cinema e literatura, é o desafio da revista Antílope, especializada em crítica de HQs, que chega ao segundo número. A proposta é artigo raro em um mercado que vive uma efervescência criativa (a quantidade de títulos lançados todos os anos é um exemplo bem claro), mas ainda carente de publicações que tragam reflexões desses trabalhos. O mais comum é ver HQs incluídas no nicho do “mundo geek/nerd” e tratados como um produto do entretenimento de massa, o que é bastante reducionista, vamos combinar.

Depois de uma primeira edição em 2013, a revista chega ao seu segundo número com uma antologia de mais de 90 páginas de quadrinhos experimentais e de vanguarda, além de uma entrevista com o autor canadense Chester Brown e artigos de Pilau dares e Ciro Marcondes. Entre os quadrinistas que participam deste número estão Dash Shaw, Rodrigo Urbano, Laurie Agusti, David Adrien. Traz ainda artigos, ensaios e críticas em suas 148 páginas. A equipe que edita a revista é a mesma que produz o jornal “Suplemento”, que parou de ser publicado no ano passado e que trazia HQs inéditas, entrevistas e resenhas.

A Antílope/Suplemento prepara mais novidades pros próximos meses, como a estreia de um site e campanhas de financiamento coletivo para dar sustentabilidade aos projetos.

Batemos um papo com Luis Aranguri, um dos editores da revista sobre o lugar da publicação . A Antílope #2 tem lançamento em São Paulo nesta terça, na Biblioteca Mário de Andrade (detalhes aqui) e depois será vendida por R$ 45 pelo site.

Como surgiu a ideia de criar a Antílope?
A revista nasceu da vontade de juntar pensamento crítico e produção de quadrinhos numa única publicação. Nós sentíamos que existia certo público para quadrinhos “autorais” (“independentes”, “alternativos”, o que quer que seja) e que podia haver uma conversa mais aprofundada sobre gêneros, autores, estética, impressão, mercado etc. Foi nosso primeiro projeto editorial, então teve bastante tentativa e erro. Quando começamos a produzir a primeira edição tínhamos uma ideia geral do que queríamos, mas não tínhamos uma noção muito fixa de como deveria ser. Ela foi se moldando pouco a pouco durante o processo.

A revista surgiu em um momento de muita efervescência nos quadrinhos nacionais. Como avaliam o papel da Antílope para esse momento atual dos quadrinhos no Brasil?
É meio difícil dizer como a revista se encaixa num panorama geral, já que a publicação independente acaba não tendo o mesmo alcance das grandes editoras. Praticamente todas as revistas foram vendidas pra pessoas de São Paulo ou do Rio de Janeiro e, mesmo que sejam polos culturais no Brasil, não sei se chega a ter influência de alguma forma. Nós gostamos de pensar que falamos para um público que entende que quadrinhos são tão complexos quanto qualquer outro meio, mas é difícil dizer se um punhado de pessoas pode ser considerado um “público”. Acabou nos abrindo um espaço legal, como um cartão de visita, para os cursos e oficinas que damos. Mas tudo isso é muito como jogar uma pedra num lago imenso. É um gesto pequeno, mas vai saber no que pode dar mais pra frente.

Como funciona a curadoria para escolha de HQs e pautas? Existe algum parâmetro, linha editorial?
Nós nos mantemos ligados no que anda rolando nas redes sociais. O Tumblr e o Instagram são especialmente úteis nesse sentido. O comum é listarmos autores com base em histórias ou desenhos que nos chamaram a atenção por algum motivo; depois nos reunimos pra discutir se é o caso de convidar ou não. O que queremos mostrar são as diversas possibilidades gráficas e narrativas dos quadrinhos, então tentamos juntar trabalhos diferentes entre si pra ressaltar isso. Para a parte de artigos, acabamos tendo uma predileção por estudos estéticos, mas queremos deixar a revista mais abrangente a partir da próxima edição, talvez com algum texto que dê conta dos aspectos mercadológicos diretamente relacionados com a prática criativa ou algo nessa linha. O dado de que a revista de super-herói norte-americana tem 22 páginas para que os artistas trabalhem 22 dias e folguem 8 no mês é uma implicação formal de uma imposição financeira/mercadológica/profissional. Esse tipo de coisa nos interessa. O caso é que acaba sendo um processo difícil encontrar textos legais, porque nos parece que pouca gente se aprofunda nos temas ou faz relações interessantes com outras coisas além de quadrinhos. Mesmo no mundo acadêmico, o que mais se encontra, ainda hoje, são artigos que usam quadrinhos apenas como algum tipo de pretexto de “encaixe” de fórmulas que vêm de outros lugares. Coisas como “Jimmy Corrigan: uma leitura lacaniana” ou “O anarquismo em Watchmen” têm aos montes.

Tudo isso é muito como jogar uma pedra num lago imenso. É um gesto pequeno, mas vai saber no que pode dar mais pra frente

O que o futuro reserva para a publicação? Podem compartilhar conosco os planos de vocês para as próximas edições?
Agora estamos nos focando no lançamento da segunda edição, que conseguiu o apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, através do edital ProAC. A Antilope 2 traz uma entrevista com Chester Brown, artigos de Pilau Daures e Ciro Marcondes, e quadrinhos de Nick Drnaso, Dash Shaw, Amanda Baeza, Daniloz, Jason, Laurie Agusti, Joelle Isoz, Simon Hanselmann e outros. Nosso passo seguinte é colocar no ar um site Antilope/Suplemento e aproveitar pra reativar o jornal, que acabou ficando em hiato desde o final do ano passado. Tanto a Antilope 3 quanto as próximas quatro edições do Suplemento serão financiadas via crowdfunding, o que deve nos manter ocupados por alguns meses.

O que acham da cobertura de quadrinhos no Brasil, não só na mídia impressa, mas no geral, incluindo os sites especializados?
Nós criamos o Suplemento pra tentar fazer um tipo de “propaganda” do que tem de legal sendo feito pra um público que não necessariamente lê quadrinhos, já que a maior parte dos sites considerados “especializados em quadrinhos” são voltados para a cultura nerd, geek, então acabam falando sobre quadrinhos (também falam sobre cinema, séries de TV, música, games) por uma relação quase fundamental — mas desde que toque em algum dos gêneros ou autores que interessam pro público deles. É uma cobertura muito restrita, é o nicho do nicho. Na mídia tradicional parece ter havido um aumento na cobertura de certos lançamentos, mas ainda parece mais por causa de um fascínio com o autor do que interesse pela obra em si. Ou seja, não são necessariamente os quadrinhos que chamam a atenção, não se fala de quadrinhos como se fala de cinema ou programas de televisão, por exemplo. De um modo geral, parece que só é reforçada a imagem de que quadrinhos só são excepcionalmente bons, que vale a pena ler só um ou dois livros. Às vezes algum autor ou outro cria um site para discutir estética e linguagem, mas são casos meio isolados e de duração e abrangência inconstantes. Normalmente é onde encontramos artigos mais aprofundados sobre o visual e as questões levantadas por um trabalho.

Sem mais artigos