Foto: BrunoAlves/Divulgação.

Foto: BrunoAlves/Divulgação.

Teatro em casa, compartilhando cômodos e afetos
Grupo de artistas abrem as portas de suas moradas em busca de uma nova relação entre quem encena e quem assiste

Por Alexandre Figueirôa

Dificuldade para obtenção de pauta nos poucos teatros locais, vontade de vivenciar novos espaços para uma encenação ou, simplesmente, o desejo de estabelecer conexões e laços mais palpáveis com as pessoas são algumas das razões que tem feito reaparecer no Recife um tipo de experimento que vem se proliferando nos últimos meses: o “teatro em casa”. O diretor e pesquisador , o ator e encenador e a atriz estão abrindo as portas de suas moradas para esta experiência e os resultados surpreendem.

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A prática não é nova. Nos anos 1960 e 70, por exemplo, período de muita movimentação nas artes visuais e cênicas com os “happenings” e as performances, era comum eventos artísticos saírem dos teatros e galerias e ocuparem ambientes diversos, inclusive as residências e ateliês dos artistas envolvidos nas ações. Elas incorporavam muitas vezes diversas expressões – dança, música, instalações – e o público também podia ser instigado a participar.

Esse tipo de intervenção artística também é registrado em locais com governos intolerantes e períodos de repressão política. No Irã, onde existe uma forte censura por conta das severas leis islâmicas, é comum músicos fazerem recitais em suas casas para escapar da vigilância do regime. No Brasil, nos tempos da ditadura militar, reuniões domésticas transformavam-se em saraus onde era possível fazer críticas e questionamentos que não eram bem vistos pelos militares.

No Recife, no início dos anos 1990 o crítico de arte e poeta Paulo Azevedo Chaves abriu os portões de sua casa na rua Amélia, nos Aflitos, para exposições de artes plásticas, lançamento de livros e montagens teatrais. Uma versão de A Tempestade, de Shakespeare, foi encenada lá com direção de Marco Camarotti e As Criadas, de Jean Genet, por William Sant’anna. No lançamento do livro Os Ritos da Perversão, de sua própria autoria, a sala da Casa Azul, como Chaves denominava seu espaço, foi palco de um recital acompanhado por uma atuação de rapazes cuja performance dialogava com os poemas da obra.

Foto: Reprodução/Facebook/TeatroDeFronteira.

Foto: Reprodução/Facebook/TeatroDeFronteira.

Experiências

Nessa redescoberta do uso de lugares diferentes para uma encenação, um dos primeiros a explorar as possibilidades de fazer teatro em seu apartamento foi Rodrigo Dourado com o Grupo Teatro de Fronteira. Inicialmente restrito aos amigos, Rodrigo e o ator Wellinton Júnior prepararam um solo fruto de um experimento autobiográfico intitulado Complexo de Cumbuca, criação do próprio performer. São cinco pequenas histórias contando as tentativas de encontros amorosos de um jovem gay do Recife.

Para Dourado esse movimento do “teatro em casa” reflete o desejo de experimentar espaços alternativos, de protestar contra as condições precárias dos teatros, mas no caso da montagem por eles realizada “o apartamento surge como personagem, pois ele tinha a ver com a ideia da solidão amorosa, da vizinhança com o bairro da Boa Vista (o apartamento de Dourado fica na rua do Hospício), sobre a vivencia gay, enfim, ele tinha uma função dramatúrgica”. Eles não cobram ingresso porque querem que a ida para ver o espetáculo se transforme num encontro. “Queremos que as pessoas encontrem a casa aberta, vejam o processo da montagem da cena acontecendo ali, sem bastidores e sem pudores”, completa. Em junho as atividades serão retomadas e abertas para o público em geral.

A troca mais intensa com a plateia também norteia o “teatro em casa” concebido por Jorge Clésio e que está acontecendo atualmente na Outrora, sua casa/loja de móveis antigos. Lá estão sendo encenados dois monólogos relacionadas a temas do universo feminino, cenas independentes e que aos poucos foram entrando em sincronicidade. As apresentações já chegaram a levar, numa única noite, 60 pessoas aos cômodos de uma antiga casa situada na rua da Glória.

A atriz Hilda Torres em cena do Outrora, na Rua da Glória. (Foto: Divulgação).

A atriz Hilda Torres em cena do Outrora, na Rua da Glória. (Foto: Divulgação).

Mas o número de espectadores é o que menos importa para Clésio e as atrizes Luciana Pontual, responsável por encenar o texto Da Paz, de Marcelino Freire e Hilda Torres, performer de A Mulher Independente, adaptado dos escritos de Simone de Beauvoir. “Não tenho interesse por esse tipo de teatro medido pelo número de espectadores. Já tivemos apenas seis pessoas nos assistindo e a troca foi tão intensa quanto em dias com público maior”, diz Clésio. Hilda vê na experiência uma forma de humanizar o artista. Luciana corrobora: “sinto-me melhor que no palco tradicional, aqui é olho no olho”. Ao final da apresentação, diretor e atrizes conversam sobre a experiência e não raro, pessoas da plateia improvisam algo para mostrar, recitando poemas e até mesmo dançando.

Para a atriz e arte-educadora Márcia Cruz fazer teatro nos cômodos de casa é uma espécie de ação de guerrilha no teatro. Ela está transformando sua residência na rua do Riachuelo em espaço cultural com realização de contação de histórias, oficinas curtas de processos criativos e o Teatro de Quinta, quando um autor é escolhido para servir de base para a criação de um trabalho de criação coletiva envolvendo três atores. Neste mês de maio Luciana Pontual, Fabio Calamy e Daniel Barros montaram um espetáculo a partir dos escritos do poeta e contista Cleyton Cabral.

Cabral não interferiu na concepção da montagem e se sentiu muito à vontade com o resultado apresentado, pois a escolha dos textos foi fruto de uma relação de afetos. O elenco se debruçou no blog do escritor e no seu mais recente livro Tempo Nublado no Céu da Boca. Em agosto Márcia e o produtor Plínio Maciel querem trabalhar com a obra do escritor Cícero Belmar. Não é cobrado ingresso para o Teatro de Quinta, para ajudar a manter o espaço pede-se apenas uma colaboração do visitante no valor que ele desejar.

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Intimidade

Caminhar entre os móveis e utensílios domésticos de uma casa normal, passar por salas, quartos, cozinha, ir até o quintal acompanhando o elenco durante a encenação, ficar cara a cara com os atores é a principal marca do “teatro em casa”, um formato que, entre outras coisas, rompe com a barreira entre o público e o privado e ao mesmo tempo cria algo cada vez mais evidente no teatro atual, uma cena que explora a proximidade entre quem interpreta e quem assiste.

Mesmo no teatro tradicional isto já pode ser observado. Muitos espetáculos usam novas disposições do espaço cênico e têm optado por plateias com número limite de pessoas ou espectadores que são dispostos colados à cena ou nela integrados. A montagem de A Filha do Teatro, de Luiz Reis, feita por Antonio Cadengue, alguns anos atrás, já seguia esse caminho do que hoje é chamado de “teatro da intimidade”. Segundo Rodrigo Dourado esse movimento em direção à intimidade é a grande tendência do teatro contemporâneo. “Ela tem um caráter pedagógico e é uma tentativa de reaproximar a plateia do teatro”.

E pelo visto essa reaproximação pode estar surtindo efeito. Diante dos fenômenos midiáticos que massificam os processos de fruição artística ou pulverizam as relações entre o artista e seu público, poder compartilhar emoções, expressar no ato as reações ao que se está vivenciando é um caminho que traz de volta a sensibilidade pelo outro, o afeto e a certeza de que a arte não é só algo para distrair e preencher os momentos de ócio.

Foto: BrunoAlves.

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