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The Last of Us: adaptação da HBO imprime novos contornos, mas mantém-se fiel à proposta original do jogo

A produção tem tudo para ser uma das melhores adaptações de um videogame para a TV. Resta saber se a condução da série conseguirá manter o fôlego

The Last of Us
Neil Druckmann e Craig Mazin (criadores)
EUA/CAN, 2023, 16 anos
Com Pedro Pascal, Bella Ramsey, Gabriel Luna
Novos episódios na HBO Max

A aguardada adaptação para a TV da franquia de jogos eletrônicos The Last of Us finalmente fez sua estreia no catálogo da HBO Max. A expectativa do público pela série foi tamanha que o lançamento, na noite do último domingo (15), provocou até mesmo instabilidades na plataforma de streaming, que ficou fora do ar para boa parte dos espectadores. E não é para menos: o episódio piloto nos sugere que a produção tem um forte potencial para se consolidar como uma das melhores adaptações de um videogame para a televisão.

Seja livro, quadrinhos ou videogame, o fato é que, quando uma história é adaptada para as telas do cinema ou da TV, as chances da narrativa se perder e não honrar com a proposta original são grandes – e lançamentos recentes nos atestam a recorrência disso. Esse, porém, não parece ser o caso de The Last of Us. Roteirizada por Craig Mazin, de Chernobyl, e Neil Druckmann, criador do jogo, a produção nos mostra, ao menos em seu primeiro episódio, que o trabalho cuidadoso pode resultar numa trama capaz de introduzir novos elementos e contornos ao mesmo tempo em que se mantém fiel às suas raízes.

Na história, acompanhamos Joel (Pedro Pascal) e Ellie (Bella Ramsey), uma dupla improvável, mas que logo precisa estar unida no cenário pós apocalíptico pelo qual o mundo atravessa. Enquanto ele é um contrabandista de meia-idade cuja vida foi tragicamente marcada pelo início da infecção do fungo Cordyceps, que devastou a humanidade, ela é uma órfã de 14 anos que não conhece a vida antes disso. Assim como no jogo da Naughty Dog, a série televisiva começa no fatídico dia em que os primeiros casos de infecção aparecem. Mas, enquanto no game o marco é o dia 26 de setembro de 2013, na série os eventos se iniciam no ano de 2003. Com um salto temporal de 20 anos, toda a narrativa principal é ambientada em 2023.

Com nove episódios ao todo, essa primeira temporada contará toda a história do primeiro jogo. Ainda que a premissa permaneça a mesma, as primeiras impressões são de que a produção da HBO pode trazer um olhar renovado e mais aprofundado sobre a jornada de Joel e Ellie.

Novas nuances e personagens (ainda mais) humanizados

Antes de tudo, é importante pontuar que a adaptação da HBO é uma série de drama. Diferente da gameplay, que é repleta de ação, aqui há um aprofundamento maior nos diálogos, atritos e afeições entre os personagens. Essa escolha, inclusive, reforça aquilo que sempre foi o diferencial da franquia: não se trata de um jogo ou série sobre zumbis, mas sobre relações humanas na adversidade. Isso não quer dizer, contudo, que a produção não contenha boas doses de ação. A questão é que esses momentos só estão inseridos quando couberam ser adaptados. Assim, grande parte das lacunas são preenchidas com o desenvolvimento do que não é contemplado pelo jogo. Até a construção do próprio Joel passa a ganhar novos componentes que melhor fundamentam suas motivações como personagem.

Outro ponto que vale destacar é que, diferente da gameplay, cuja perspectiva é majoritariamente a de Joel, na adaptação coube dedicar mais momentos a outros personagens como Sarah (Nico Parker), filha dele, e a própria Ellie. Um exemplo foi o cuidado dos roteiristas em retratar como as pessoas viveram sua rotina naquele que foi o dia inicial da pandemia de Cordyceps. Nesse primeiro momento, inclusive, o protagonismo fica por conta de Sarah, que na história original não ganhou tanto espaço de tela.

Fidelidade ao jogo

Mesmo com modificações, a série consegue transportar para o formato televisivo toda a atmosfera que fez The Last of Us tornar-se um dos maiores sucessos da indústria dos games. Além de Pedro Pascal como Joel e Bella Ramsey como Ellie, a performance de Anna Torv como Tess é um dos pontos altos do piloto. Ganha destaque também o forte apelo visual proporcionado pelas cenas reproduzidas fielmente ao jogo. Mas vale salientar que a produção não se resume a replicar os passos e as cenas do videogame. As adições e alterações até agora introduzidas no episódio de estreia chegam ao arco narrativo de forma bem fundamentada.

Cordyceps e a transmissão

A adaptação da HBO chega ao público dez anos depois do lançamento do jogo original, que foi em 2013. Naquela época, não tínhamos sentido o impacto de uma pandemia. Já hoje, enquanto atravessamos uma, podemos dimensionar melhor seus efeitos sobre nossas vidas. Portanto, o momento pelo qual a humanidade atravessa agora é outro e modificações também são bem-vindas para tentar dar conta dessa nova realidade.

Um exemplo simples, mas que atualiza o sentido da narrativa, são as formas de transmissão da doença, que não se dão pelas vias respiratórias através dos esporos do fungo, como é retratado no jogo. “No mundo que estamos criando, se colocarmos esporos no ar, ficaria bem claro que eles se espalhariam por toda parte e todos teriam que usar uma máscara o tempo todo e provavelmente todos estariam completamente infectados nesse ponto”, explicou Craig Mazin em entrevista ao Comic Book.

Ainda que não dê para bater o martelo, a forma como o episódio piloto foi conduzido sugere que há um forte potencial. Resta saber se o fôlego irá se manter até o final da temporada. Com lançamentos semanais, The Last of Us está disponível na HBO Max. Os novos episódios chegam à plataforma aos domingos, sempre às 23h (horário de Brasília).

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