Trecho de uma edição de The Old Men and The Sea (Foto: Reprodução via MyPorchBlog)

Trecho de uma edição de The Old Men and The Sea (Foto: Reprodução via MyPorchBlog)

O QUE A ONDA TRAZ
De a Hemingway, 10 livros que usam o mar como motriz para falar de memória, superação e luta

Por Andressa Monteiro

Atos de contemplação e observação ao contar histórias muitas vezes podem ter uma relação profundamente intrínseca com o mar. Desde que o homem aprendeu a navegar longas distâncias, muito foi escrito e registrado por meio da literatura marítima e da espera, bastante comum, presente em contos sobre caça às baleias, naufrágios, estudos de novas espécies e vida animal marinha, canibalismo, piratas ou poemas românticos entre marujos e sereias. O escritor John McPhee em sua obra À Procura De Um Navio costumava dizer que “durante toda a viagem, enquanto nada ocorre, marinheiros contam histórias sobre as coisas que acontecem.”

Normalmente, navegar por amplos mares é uma atividade um tanto quanto tediosa e solitário. Porém, acontecimentos durante o trajeto podem nos surpreender e entreter. Além disso, homens de todos os tempos e idades sempre procuraram no mar formas de se autoafirmarem, fugindo de problemas, descobrindo terras, tesouros ou conquistando novos recordes de distância e velocidade. Livros de temas marítimos acabam traduzindo anseios de superação, evolução e principalmente de luta, em mares sem compaixão, fé, lei ou memória.

Fizemos uma seleção de 10 livros, escolhidos independentemente de época ou gênero. Alguns são clássicos reconhecidos e outros navegam por temas obscuros e líricos ou contam relatos de exploradores em histórias bibliográficas, de ficção e romance. Confira:

Foto: Livraria do Congresso Norte-Americano/Reprodução

Foto: Livraria do Congresso Norte-Americano/Reprodução

1
– Herman Melville

“Todas as coisas nobres são tocadas pela melancolia.”

Quando foi publicado em 1851, com o título de Moby Dick ou A Baleia, Herman Melviller tinha apenas 32 anos e uma carreira imprevisível como escritor. Mas relatos guardados de sua juventude em uma embarcação que tinha como principal objetivo a caça às baleias da espécie cachalote – descrita no livro como Leviatã, o monstro marinho mencionado na Bíblia que travava grandes lutas contra Jonas -, fizeram com o que o autor escrevesse a sua maior criação até hoje de grande relevância para a literatura.

De forma circunstancial, a obra faz associação com a tragédia do baleeiro americano Essex, naufragado no Pacífico em 1820, devido ao ataque de uma cachalote, deixando sobreviventes à deriva por três meses, onde tiveram que recorrer ao canibalismo. A história, publicada em 1821, teve relação na criação do livro A Vingança da Baleia, de Nathaniel Philbrick, que consequentemente influenciou Edgar Allan Poe, recriando o clima do desastre em O Relato de Arthur Gordon Pym (1838). No Brasil, existe um catálogo com edições adaptadas ao público infantil de Moby Dick, que chegou a se transformar em desenho animado, se tornando companheira de aventuras dos garotos Tom e Tub.

Leia: Moby Dick [Cosac Naify, e-book, R$ 43]

Hemingway curtindo uma banheira (Foto via ThisIsNotPorn.com)

Hemingway curtindo uma banheira (Foto via ThisIsNotPorn.com)

2

“A lua afeta o mar tal como afeta as mulheres.”

O Velho e o Mar é o romance mais famoso de Ernest Hemingway, escrito no período pós-guerra e ganhador do Pulitzer, em 1953, sendo a última obra publicada enquanto o autor ainda era vivo. O enredo conta a história de Santiago, pescador cubano que depois de 81 dias sem fisgar qualquer peixe acaba se deparando com um de tamanho cavalar. A partir daí cria-se uma relação de um homem com seus pensamentos, tristezas, alegrias e ternuras por um peixe com o qual lutará até derrotá-lo por fim. Hemingway morreu em 1961, 10 anos após escrever O Velho e o Mar. Sua vida foi repleta de altos e baixos, pois sofria de hipertensão, diabetes e depressão. Em 2 de julho de 1961, aos 61 anos, o escritor cometeu suicídio com uma de suas armas favoritas.

Leia: O Velho E O Mar [Bertrand Brasil, R$ 39]

pintado por William Strang (Foto: Divulgação)

pintado por William Strang (Foto: Divulgação)

3
Sea-Fever – John Masefield

O poeta inglês John Masefield tinha apenas 22 anos quando escreveu Sea Fever, principal poema citado pelo capitão Kirk no seriado Jornada nas Estrelas e que também dá nome ao livro de poemas marítimos. Aos 13 anos de idade, John passou dois anos como aprendiz em um navio, desenvolvendo grande paixão pelo mar. Morou nos Estados Unidos e depois retornou à Inglaterra, realizando o desejo de se tornar um escritor. Mais temas recorrentes em suas obras são: caça à raposa, corridas ao ar livre e natureza em geral. Em inglês.

Poema Sea-Fever
I must go down to the seas again, to the lonely sea and the sky,
And all I ask is a tall ship and a star to steer her by;
And the wheel’s kick and the wind’s song and the white sail’s shaking,
And a grey mist on the sea’s face, and a grey dawn breaking,
I must go down to the seas again, for the call of the running tide
Is a wild call and a clear call that may not be denied;
And all I ask is a windy day with the white clouds flying,
And the flung spray and the blown spume, and the sea-gulls crying.
I must go down to the seas again, to the vagrant gypsy life,
To the gull’s way and the whale’s way where the wind’s like a whetted knife;
And all I ask is a merry yarn from a laughing fellow-rover,
And quiet sleep and a sweet dream when the long trick’s over.

Leia: Sea Fever [Paul & Co editora, Importado, R$ 89,90]

Amyr Klink, sempre avesso à fotos, aqui fotografado para o livro de Jairo Goldflus (Divulgação)

, sempre avesso à fotos, aqui fotografado para o livro de Jairo Goldflus (Divulgação)

4
Mar Sem Fim – Amyr Klink

Mar Sem Fim começa em 31 de outubro de 1998, dia que Amyr Klink, famoso navegador brasileiro, deixou a mulher e filhas para realizar um grande projeto: sua primeira volta ao mundo, feita nas águas da Antártica, onde se encontram os mares mais perigosos do mundo. Amyr foi o primeiro a realizar o feito, navegando sozinho no veleiro Paratii. O livro revela todas as experiências da viagem.

Trecho de Mar Sem Fim
Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

Leia: Mar Sem Fim [Companhia das Letras, R$ 52]

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação/Novo Século

5
As Ondas – Virginia Woolf

Bernard, Neville, Louis, Jinny, Susan e Rhoda são as seis personagens que levam o leitor a uma viagem íntima e subjetiva aos pensamentos de Virginia Wolf. Em nove movimentos, onde o Sol discorre sobre o seu percurso ao mar, três homens e três mulheres divagam sobre suas vidas, desde a infância até os tempos de velhice. Há uma sétima voz, ausente e chamada de Percival, que jamais se manifesta, aparecendo como referências a outros personagens. No quinto movimento, o Sol e as vidas de cada um começam a declinar.

Trecho de As Ondas
O sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos pouco, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, em parar. [Tradução de Lya Luft]

Leia: As Ondas [Novo Século, R$ 59,90]

Foto: Reprodução da capa de Adrift

Foto: Reprodução da capa de Adrift/Houghton Mifflin

6
À Deriva (Setenta e Seis Dias Perdido no Mar) – Steven Callahan

Steven Callahan, marinheiro, arquiteto naval e inventor viajou para as Ilhas Canário até as Bahamas, em um barco de 6,5 metros construído por ele mesmo. Cerca de uma semana depois da partida, o barco sofreu um dano durante uma tempestade. Entre seus mantimentos estavam um saco de dormir, comida, água, cartas de navegação, um arpão, um equipamento para converter água do mar em água potável e uma cópia do livro Sobrevivência no Mar, de Dougal Robertson. Durante 76 dias, ele flutuou pelo oceano, pescando com sua arma e utilizando o equipamento solar para transformar a água do mar em potável (500 ml por dia). No dia 76, ele avistou terra e chegou ao seu destino. Mas não ficou no hospital e logo voltou a viajar de barco. Ele havia percorrido 1800 milhas, tornando-se o único homem na história que sobreviveu mais de um mês sozinho no mar, em uma balsa salva-vidas

Trecho de À Deriva (Tradução livre)
Há uma magnífica intensidade na vida que surge quando não estamos no controle, mas apenas reagindo, vivendo e sobrevivendo. Eu não sou um homem religioso, mas para mim ir ao mar é obter um vislumbre da face de Deus. No mar, lembro-me da minha insignificância e da insignificância de todos os homens. É um sentimento maravilhoso ser humilde.

Leia: Adrift – Seventy-six Days Lost At Sea [Houghton Mifflin Editora, Importado, e-book, R$ 20]

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

7
Tubarão – Peter Benchley

O livro de Benchley serviu como maior inspiração ao filme Tubarão de Steven Spielberg. A história se passa na cidade de Amity, onde uma mulher é atacada e morta por um tubarão. As autoridades locais se questionam quais seriam as consequências do ocorrido, já que a cidade vivia de turismo e o feriado mais importante do ano se aproximava. Sem tomar qualquer atitude, esperaram que o tubarão fosse embora, porém, a criatura voltara a atacara mais pessoas, espalhando terror entre os cidadãos. Com grande sucesso de público, o livro consegue manter a tensão em um clima empolgante até a última página, descrevendo cenas aterrorizantes – ótimo para quem gosta de suspense e terror.

Trecho de Tubarão [Tradução livre]
E um dia, perguntaram a um homem do poder:
– O que você faria para salvar as pessoas de sua cidade?
– Eu arriscaria minha vida.
– E o que você faria para se salvar?
– Arriscaria a vida das pessoas de minha cidade.

Leia: Jaws [Random House, Importado, R$ 48,70]

Jules Verne fotografado por Felix Nadal (Reprodução)

Jules Verne fotografado por Felix Nadal (Reprodução)

8
Vinte Mil Léguas Submarinas – Jules Verne

Verne, em Vinte Mil Léguas Submarinas, cria o submarino Náutilus, movido por eletricidade. Criado pelo capitão Nemo, o engenho oferece à tripulação somente o que o mar pode dar: comida – matéria prima para a produção de eletricidade. Mantido em segredo, o submarino começa a provocar estragos em outros navios e embarcações, criando a fama de “monstro marinho”, onde foi caçado pelo Professor Aronnax, seu criado Conseil e pelo arpoador Ned Land. O trio parte no navio Abraham Lincoln, que acaba sendo danificado. Aronnax, Conseil e Land são atirados ao mar e salvos pelo Náutilus, mas se tornam prisioneiros. Durante meses, o submarino percorre milhares de quilômetros, vivendo e passando por diversos lugares e experiências. O título do livro se refere à distância percorrida durante a excursão.

Trecho de Vinte Mil Léguas Submarinas (Tradução Livre)
Nós até podemos enfrentar as leis humanas, mas não podemos resistir as naturais.

Leia: Vinte Mil Léguas Submarinas [Martin Claret, R$ 28]

Foto: Reprodução/Odosuge.com

Foto: Reprodução/Odosuge.com

9
Relato de um Náufrago – Gabriel García Márquez

Relato de um Náufrago, escrito por Gabriel García Márquez e também ganhador do prêmio Nobel de Literatura, conta a narrativa de um marinheiro sobrevivente a um destróier da marinha Colombiana, que carregava uma série de mercadorias contrabandeadas, jogando oito marinheiros e grande parte dos artigos ao mar. Por estar muito pesado, o destróier não pode voltar e apenas Luís Alexandre Velasco conseguiu alcançar uma balsa, permanecendo 10 dias no mar com fome, sede, até chegar em uma vila de pescadores no norte da Colômbia, na época da ditadura militar. O governo acaba por não revelar a verdadeira história ao povo sobre o desastre. Sem mencionar o contrabando, disseram que houvera uma tormenta e não deixaram que qualquer pessoa falasse com Velasco, inclusive a própria família, médicos e jornalistas. Porém, um repórter da oposição se finge de médico e consegue declarações do marinheiro sobre o episódio ocorrido.

Trecho de Relato de um Náufrago
Há livros que não são de quem os escreve, mas de quem os sofre, e este é um deles. [Tradução de Remy Gorga Filho]

Leia: Relato de Um Náufrago [Record, R$ 30]

Gravura do século passado representando Robson Crusoé (Reprodução)

Gravura do século passado representando Robson Crusoé (Reprodução)

10
Robinson Crusoe – Daniel Defoe

Romance escrito por Daniel Defoe e publicado em 1719, no Reino Unido. Confessional e ao mesmo tempo didático, a obra é a autobiografia fictícia do personagem-título sobre um náufrago em uma ilha tropical, próxima a Trinidad, com a presença de canibais, sua passagem pelo Brasil colonial e outros perigos enfrentados por Robinson antes do resgate. Até o final do século 19, nenhuma obra teve mais reimpressões, spin-offs e traduções do que Robinson Crusoe, com quase 700 versões, incluindo edições infantis.

Leia: Robinson Crusoe [Penguim Companhia, R$ 28]

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