O crítico Luiz Joaquim (Divulgação)
Cena de O Som Ao Redor, um dos filmes brasileiros mais comentados (Divulgação)
Cena de O Som Ao Redor, um dos filmes brasileiros mais comentados (Divulgação)

Anti-indiferença audiovisual
O crítico de cinema e realizador Luiz Joaquim acredita que cinema em Pernambuco ganhou destaque por ser autoral, controverso. “Nunca ouvi opiniões fofas sobre os filmes”

Curso História do Cinema Pernambucano, que começa nesta segunda (13), mostra como a ousadia dos cineastas locais tem sido fundamental na consolidação de nossa produção audiovisual

Por Alexandre Figueirôa

O sucesso dos filmes pernambucanos em festivais e mostras nos últimos anos é inquestionável. Alguns deles também estão conseguindo romper as dificuldades usuais do cinema autoral para chegar ao circuito comercial e tem cumprido temporadas em salas de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. O pioneirismo dos realizadores do Ciclo do Recife, a inquietação dos superoitistas da década de 70 e a visão cosmopolita da nova geração consolidada a partir da retomada do cinema brasileiro têm sua parcela de contribuição nessa fase alto astral do audiovisual local.

Esta epopeia cultural está em debate no curso História do Cinema Pernambucano na Sala João Cardoso Ayres da Fundação Joaquim Nabuco. Um dos professores do curso é o jornalista e crítico de cinema Luiz Joaquim. Ele conversou com O Grito!sobre suas impressões da cena cinematográfica local.

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Há filmes bons fora dos ciclos de cinema

Você tem acompanhado de perto os festivais de cinema brasileiro onde os filmes pernambucanos estão sendo exibidos. Conte-nos um pouco do desempenho desses filmes nesses eventos.
De maneira geral, o nome ‘Pernambuco’ vinculado a um filme parece sugerir um brilho especial no cardápio de programação dos festivais nacionais. Observo que, naqueles festivais em que há uma hierarquia de programação, as produções do cinema feito por aqui ganham posição privilegiada. O que naturalmente já é apresentado como destaque (em função do horário nobre) torna-se ainda mais atraente por uma natural curiosidade do público em conhecer um novo filme pernambucano, ou simplesmente conferir aquela produção nossa que já chega por lá com um histórico de êxito carimbando por outro festival anterior. Quanto ao resultado, do ponto de vista da premiação, que é o indicativo mais imediato para “resultados”, há quase uma totalidade de eficiência.

No último Festival de Brasília, por exemplo, eram sete produções concorrendo ao Candango (troféu). Apenas um dos filmes não teve nenhum tipo de reconhecimento oficial. Do ponto de vista de efeito pessoal no público, o resultado é claramente perturbador. Seja para o positivo ou negativo. O que é bom. O que digo é que não percebo opiniões fofas sobre o que viram. Sempre são defesas empolgadas, ou contestações (sim elas existem) enérgicas. Indiferença nunca.

O cinema feito em Pernambuco nos dias atuais tem recebido muito apoio da crítica especializada, mas o sucesso nas salas ainda não reflete isto. Por quê
O filme de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor, veio mostrar que isso pode ser diferente (guardando as proporções de “investimento x resultado”). Mas a sua pontuação confere de fato. A questão é que o não-sucesso nas salas é um ponto que transcende a do cinema pernambucano. Assim como o cinema mineiro, gaúcho, cearense (os fora do eixo Rio-SP, leia-se fora do padrão mais comercial, que usa máquinas marqueteiras) também são vítimas das salas vazias. O assunto, na verdade, é mais complexo, mais orgânico. Tem a ver primeiro com canais de exibições – poucas salas no Brasil estão dispostas a oferecer esse tipo de programação mais reflexiva e introspectiva (como a que vemos no cinema de Pernambuco) – e segundo que é preciso promover uma educação do olhar do grande público de cinema, em sua larga maioria mais habituada a hambúrguer com coca-cola, e quase nunca a uma iguaria da culinária francesa, por exemplo. E esse último é um processo lento.

Os filmes realizados no Estado têm uma marca autoral muito forte. Você considera isto um dado positivo para a nossa produção?
Acho sim. Defendo inclusive que há diversos “cinemas pernambucanos” e não apenas um. O que nos une é mais a territorialidade e menos aspectos estéticos. É mais o modo de produção do que a busca por um discurso único. Acredito que é exatamente pela audácia e liberdade autoral que temos nos nossos filmes o responsável por torná-los tão controversos, queridos (ou questionados). É essa personalidade que os tornam especiais dentro de um tipo de cinema mais comportado circulando nos festivais nacionais.

O que diferencia o cinema pernambucano contemporâneo da produção de outros centros?
A resposta está um pouco respondida acima sendo a palavra chave “audácia”, “coragem”. O cinema pernambucano, que tem conquistado os festivais, prima pela surpresa, pelo inusitado, mas sempre com um pé em questões reais. Levantando problemáticas políticas, humanas, sociais, em sua maioria polêmicas. É um cinema que flerta com a inteligência e riqueza da linguagem cinematográfica, mas não é esnobe ao ponto de esquecer em entreter o público. É uma rara combinação: agradar público e crítica. O cinema pernambucano caminha com considerável tranquilidade por essa via.

O crítico Luiz Joaquim (Divulgação)
O crítico Luiz Joaquim (Divulgação)

Os equipamentos digitais são os grandes responsáveis pelo crescimento de nossa produção
Não há dúvida. Muito dos nossos novos talentos surgiram pelas facilidades do digital. Daniel Bandeira, Leonardo Lacca, Daniel Aragão, Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso, Marcelo Lordello, Tião e o próprio Kleber Mendonça, que produz desde o final dos anos 1990 e só em 2010 veio rodar seu primeiro filme com uma câmera 35mm, no caso O Som ao Redor. Isto da facilidade do digital intermediando e revelando novos talentos é, na verdade, um fenômeno mundial.

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