Foto: Hannah Carvalho.

O projeto Mulungu nasceu das inquietações musicais de Jáder, Guilherme Assis e Ian Medeiros, amigos de palco, estúdio e da vida. Eles estiveram juntos em grupos anteriores, como o Projeto Sal e a banda do cantor Barro.

Dessas experimentações no trabalho coletivo nasceu a Mulungu, cujo single de estreia, “No Ar”, acaba de sair. A estreia em disco, O Que Há Lá, tem previsão de lançamento para este ano, com incentivo do Funcultura.

A estreia do grupo tem como proposta celebrar e refletir as diferentes identidades, o corpo queer nos dias de hoje. “O Que Há Lá fala antes de tudo sobre os laboratórios do existir: sentimentos e sensações humanas de um corpo queer nos dias de hoje”, explica Jader. “Com o tempo, percebemos o quanto o disco ganhou essa identidade existencial, mas ao mesmo tempo que é muito fluido, muito comunicativo. Fala de um jeito simples sobre sentimentos complexos.”

Batemos um papo com a banda para conhecer mais sobre o processo de formação desta nova banda, os sentimentos em relação à situação atual nesta pandemia e também os planos para o futuro.

Todos vocês possuem experiências em outras bandas e projetos. Como se deu essa união para formação de uma nova banda?
Guilherme: Tudo começou através das inquietações e sintonia minha e de Jáder, pois começamos a compor com uma frequência alta e queríamos desaguar tudo isso. Foi quando começamos a pré-produzir as faixas semanalmente durante o início de 2018. E eis que Ian vem pra Recife pra passar um final de semana e no meio de uma cerveja surge um convite pra ele conhecer o nosso estúdio (Zelo Estúdio) e nesse primeiro encontro já começamos uma música quase que inteira e no outro dia já estava gravada. O processo foi tão orgânico e gostoso que Ian se ofereceu pra entrar na banda e fazer o começo da produção do disco no Cantilena, estúdio que ele tem Natal. E o sincronismo entre nós só aumentou desde então!

O que vocês podem adiantar do primeiro disco, O Que Há Lá? Existe algum conceito? Como está sendo o processo de composição?
Jáder: O Que Há Lá fala antes de tudo sobre os laboratórios do existir: sentimentos e sensações humanas de um corpo queer nos dias de hoje. Com o tempo, percebemos o quanto o disco ganhou essa identidade existencial, mas ao mesmo tempo que é muito fluido, muito comunicativo. Fala de um jeito simples sobre sentimentos complexos. O processo de composição já está finalizado! O disco está na fase final de mixagem e masterização pra ja já tá na casa de todo mundo! Mas foi muito curioso esse processo. Eu e Guilherme, guitarrista da banda e produtor do disco, já trabalhávamos juntos desde o Projeto Sal, onde o exercício da composição era muito solitário pra mim; eu levava as canções para a banda e juntos construíamos o arranjo.

Na Mulungu foi diferente, todas as músicas são parcerias entre eu e Guilherme, que passamos os meses iniciais de idealização da banda fritando nossas ideias juntos, ele me mandando um violão que ele tinha feio pelo Whatsapp e eu completando com as letras do lado de cá, além dos muitos e muitos encontros no estúdio pra ir criando o que a gente queria de sonoridade. Foi um processo muito gostoso de sentir… Quando Ian entrou na banda, mexeu em todos os arranjos e deixou tudo melhor ainda hahaha!

Lançar um trabalho em meio à pandemia deve ser um desafio enorme. Como é colocar o single “No Ar” neste momento?

G: É uma incógnita enorme pra gente. Estamos no meio da maior crise global e nacional, que antes disso as pessoas tinham todos os seus planejamentos e expectativas do ano e PAMM, para tudo! Nós tínhamos um calendário todo organizado com lançamentos e shows pra esse ano.

E além disso não é apenas o lançamento de um single da banda, é o nosso primeiro lançamento e não temos a mínima noção de como as pessoas vão receber a mensagem. Ao mesmo tempo vejo que a arte é uma das principais vias de escapes da tensão e do medo no momento em que estamos vivendo. Então é muito bonito ver todxs artistas se movimentando e acalantando os corações das pessoas.

A cena cultural no Brasil vive um período complicado como nunca antes. Ao mesmo tempo vejo uma intensa movimentação, com propostas cada vez mais interessantes, novas estéticas, poéticas. Qual a contribuição da Mulungu nesse contexto?

G: Estamos passando por um momento que é dado tanto valor ao “avanço” das coisas e as pessoas são cada vez mais esquecidas, poucas são as que olham pra si e pro próximo.

Nosso trabalho tem um envolvimento tecnológico importante na construção estética, seja na produção musical ou audiovisual. Todo mundo da banda tem estúdio e se arriscam em outros campos de expressões artísticas, termina que acaba sendo natural pra gente.

E ao mesmo tempo que a gente venha com essa novidade estética, também propormos que o calor sentido em nossas músicas seja refletido nas relações externas e internas de quem ouve. A autorreflexão vem a tona em muitas das músicas da gente, além de “No Ar”. É quase um processo terapêutico.

Vejo que a arte é uma das principais vias de escapes da tensão e do medo no momento em que estamos vivendo. Então é muito bonito ver todxs artistas se movimentando e acalantando os corações das pessoas.

Falem mais sobre o clipe e o trabalho de performance que vocês pensaram?
O clipe é um trabalho primoroso de Tiago Lima, que foi o diretor. Eu chamei Tiago um dia dizendo que queria fazer o clipe de “No ar”, música que ele já tinha escutado no processo de gravação e ele topou na hora. Ele já experimentava e pesquisava trabalhos utilizando o corpo humano como tela de chroma key, e me propôs uma performance onde eu me pintasse inteiro para dar uma ideia de que podemos ser qualquer coisa através do nosso próprio corpo, não existem limites no transcender que Tiago criou. Combinou perfeitamente com a ideia da música, que fala sobre olhar pra dentro e se permitir renascer. Pesquisem mais sobre o trabalho de Tiago Lima, tem um trabalho espetacular com videoclipes! 

Qual a primeira coisa que pensam em fazer assim que toda a quarentena passar?
Acho que se disséssemos qualquer coisa que não seja pisar em um palco estaríamos mentindo. A mulungu foi criada para o palco, para a explosão, para a performance. Interação humana, olho no olho com quem tá assistindo. A gente tava preparando um show de lançamento num teatro público do recife, pra criar um ambiente propício pra entregar pra plateia tudo aquilo que a gente tem pra dizer. Acho que a primeira coisa que queremos fazer é esse show. 

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