Trama do livro se passa em locais LGBTQIA+, o que faz uma ponte com o clássico "Orgia", de Tulio Carella. (Foto: Montagem sobre reprodução/Biu da Silva).

Após mais um término de relacionamento, Diógenes, um gay de meia-idade, passa a escrever sobre suas últimas relações com homens mais jovens. É dessa premissa que parte Três Rapazes e um Quarto, romance de estreia do escritor recifense Biu da Silva, recentemente publicado pela Editora Viseu. A obra apresenta caráter autobiográfico e intenso teor homoerótico, mostrando como o corpo e a sexualidade tornam-se elementos estruturantes da narrativa. 

Nosso vizinho, Biu da Silva

Por Raimundo de Moraes Especial para a Revista O Grito! A arte tem essa coisa de nos proporcionar autoconhecimento e muitas vezes servir como catarse e tábua de salvação. Na elaboração de uma obra ou até na atitude em apreciá-la – objeto de estudo, aliás, do famoso psicólogo russo Semionovitch Vigotski, que escreveu o livro Psicologia da Arte – o ser humano abre caminhos variados, de acordo como se coloca na percepção do que se propõe a fazer/mostrar ou como […]

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Em sua estreia , ao longo de 228 páginas, Biu da Silva assume seus numerosos flertes e encontros, principalmente em bares, motéis e saunas gays, com homens, em sua maioria, que trocam sexo por dinheiro. “Sou uma espécie de etnógrafo inato, gosto de ouvir histórias e fico processando essas narrativas individuais na minha cabeça, tentando entender as motivações, as consequências dessas histórias na vida das pessoas”, detalha. 

O autor irá lançar sua obra durante a 23ª Bienal PE, no próximo dia 10 de outubro,  em debate em conjunto com o escritor Nuno Kembali, que está pré-lançando Rota 12, seu mais novo livro, também pela Editora Viseu.  

Colaborador frequente da Revista O Grito!, o escritor possui um estilo irônico e mordaz em seus textos. A construção de Três Rapazes e um Quarto é marcada pela intertextualidade, em constante diálogo com outras obras e autores brasileiros e internacionais como Genet, Trevisan, Wilde, dentre outros. “São criaturas que nos apontaram caminhos, levantaram questões e nos revelaram quem somos”, opina da Silva. 

Para os interessados, o livro pode ser adquiro em formato físico ou e-book pela internet. Batemos um papo com o autor para saber mais detalhes a respeito da obra. Acompanhe: 

Primeiro queria saber como está sendo esse período de isolamento pra você. Como é a experiência lançar este livro de estreia durante a pandemia? 

Olha, esse livro não foi pensado para ser um best-seller. A existência dele não vai mudar a face do mundo. Logo, com pandemia ou sem pandemia a alegria é a mesma. Estar isolado por conta do vírus é chato, mas damos um jeito. Muito pior são os vermes que foram alçados à condição de governantes do Brasil. As sequelas desses seres perversos e repugnantes serão muito mais difíceis de serem superadas.

Como foi o processo de escrita do “Três Rapazes e um quarto”? Foi inspirado nos seus relatos pessoais? 

Foi um processo complexo pela forma como ele brotou. A primeira versão foi uma coisa “escrita automática” a la Jack Kerouac. Um fluxo de fatos vividos misturado com relatos que me contaram por aí. Sou uma espécie de etnógrafo inato, gosto de ouvir histórias e fico processando essas narrativas individuais na minha cabeça, tentando entender as motivações, as consequências dessas histórias na vida das pessoas e percebendo como elas refletem comportamentos coletivos. O primeiro rascunho tinha então uma espontaneidade interessante, mas percebi que talvez os leitores não apreendessem aquele vômito narrativo em sua totalidade. Fui então reescrevendo, reordenando, ficcionalizando até chegar a esse resultado.  

Queria que comentasse sobre a sua relação com o romance. O que o despertou para esse tipo de escrita? Qual é a sensação de ter o seu primeiro romance publicado?

É uma relação estranha. Quem acompanha meus artigos para a Revista O Grito! conhece meu estilo. Irônico, mordaz, flagrando os acontecimentos pelo que eles têm de inusitado e transgressor. Em Três Rapazes e Um Quarto, estes elementos estão lá, mas, no final, quando as diversas tramas se entrelaçam em torno do protagonista, outra perspectiva emerge. Melancolia, contradições, comportamentos cristalizados vieram à tona, revelando uma parte de mim bem menos altiva e segura. O resultado é bom para o narrador da história, pois o torna sincero e real. Por outro lado, sinto um processo de reificação no tratamento dos personagens que me é incômodo. Mas em vez de lutar contra isso, assumi essa situação e vou ver no que vai dar, pois gosto de escrever em primeira pessoa, mesmo sabendo que essa pessoa existe e não existe ao mesmo tempo. 

Recife é uma cidade gay. E não é apenas na periferia. O centro tem lugares vistos como periféricos no sentido sociocultural – bares, saunas e boates frequentadas pelo público LGBTQIA+ – e as periferias têm “centros” vibrantes onde héteros e gays circulam. Como vivemos a cidade com os nossos corpos, esta relação geográfica acontece naturalmente.

Seu interesse é conhecer o ponto de vida dos personagens ? “Como posso conhecer o modo de ser desses homens mais jovens que trocam sexo por dinheiro, mergulhando fundo na sexualidade deles”? Como foi compor essa narrativa?

Eu sempre estou querendo entender as coisas à minha volta. É assim que funciono. Pessoas e os fatos que elas vivenciam estão na base dessa necessidade de entender o mundo.  Observo, pergunto, dou pitaco, brigo, amo, desprezo e é dessa cornucópia de emoções que extraio o sentido de minha própria existência. Então quando decidi escrever um romance não foi diferente. É uma história sobre sexo, dinheiro e amor temperada com romantismo de almanaque (risos). Tenho que confessar que gosto de melodramas. Mas, também acredito que consegui entrar em camadas mais profundas ao me colocar na posição de um homem bissexual de meia idade que não consegue se livrar ou lidar bem com um certo modo de vida que predominava nas relações homossexuais de quando ele era mais jovem.  

Quando foi a primeira vez que você se deparou com algum personagem LGBTQIA+? Como você se sentiu?

Ih querida!!! Foi babado. Duas histórias. A primeira eu tinha, sei lá, uns seis anos de idade e os fundos do apartamento onde morava dava para um terreno baldio que tinha umas touceiras de carrapateira. Um belo dia, ao chegar no terraço, quando olho para baixo me deparo com dois boys nus com um em cima do outro e os dois no maior geme-geme. Não entendi o que estava acontecendo, mas vi que era algo gostoso. Mas o primeiro personagem LGBTQIA+ consciente estava dentro de mim e surgiu quando eu tinha dez anos e fui fazer um exame para uma cirurgia de fimose. Cargas d’água não sei o motivo, mas o médico era amigo de meu pai e me atendeu num hospital público. Aí quando entrei na sala para ser examinado tinha uma fila de uns dez homens na faixa de 18-20 anos totalmente despidos para algum tipo de avaliação. Quando vi aqueles machos enfileirados de pinto de fora, senti um frisson e pimba!

O corpo, a sexualidade e as experiências são elementos estruturantes da narrativa que nos é apresentada pelo personagem Diógenes. O corpo é uma zona de contato entre o eu e o espaço habitado (com foco nas regiões periféricas do Grande Recife), mas também se apresenta como uma forma privilegiada de relação com o outro em sua totalidade existencial?

Recife é uma cidade gay, dizem os entendidos (adorei o trocadilho). E não é apenas na periferia. O centro tem lugares vistos como periféricos no sentido sociocultural – bares, saunas e boates frequentadas pelo público LGBTQIA+ – e as periferias têm “centros” vibrantes onde héteros e gays circulam.  Como vivemos a cidade com os nossos corpos, esta relação geográfica acontece naturalmente. Algumas pessoas restringem seus espaços de circulação aos ditames de suas classes sociais ou necessidade profissionais. Outras mais livres, leves e soltas não entram nessa lógica e rodam por aí. Nisso, eu e o personagem Diógenes somos idênticos. Gosto de bater perna pelo Recife desde que era jovem. Morros, beira de maré, prédios revestidos de cerâmica, restaurante fino, boteco pega-bêbo, baile funk, em todos esses lugares podem acontecer aventuras e se conhecer pessoas muito divertidas. Sem exceção. É só ficar atento. 

“Frenético e repleto de referências” diz o texto de divulgação. Quais alusões da narrativa você destacaria?

A intertextualidade campeia no romance. De Genet a João Silvério Trevisan, passando por Oscar Wilde e Pasolini. Eles são bem melhores do que eu em termos criativos, mas referenciá-los me faz bem, são criaturas que nos apontaram caminhos, levantaram questões e nos revelaram quem somos.

Orgia do argentino Túlio Carella, escrito na época em que ele esteve no Recife, na década de 1960, apresenta a paixão de heterônimo de Lúcio Ginarte pelas belezas dos homens negros e mestiços, com relatos de suas experiências sexuais e seus fetiches. Você sofreu alguma influência do autor portenho?

Total. Eu cheguei a me imaginar um Túlio Carella da pós-modernidade. Descobri Orgia ainda nos anos 1980 pelas mãos do saudoso encenador Antonio Cadengue, que me emprestou uma cópia xerocada da primeira edição. Quando a obra foi relançada comprei rapidinho e li umas duas vezes. Tudo que ele descreveu continua acontecendo, em outros modos, mas acontece.

Observo, pergunto, dou pitaco, brigo, amo, desprezo e é dessa cornucópia de emoções que extraio o sentido de minha própria existência. Então quando decidi escrever um romance não foi diferente.

O romance brasileiro (ainda) é majoritariamente branco, heterossexual e de classe média. Todavia, o seu texto apresenta outros espaços e potências, aborda a relação entre homens e boa parte dos personagens periféricos. Essa representatividade faz algum sentido pra você?

Este é um romance escrito por um pardo, homossexual e de classe média flutuante. Represento esse segmento. Num determinado momento do processo de escrita pensei em dar voz a esses rapazes, mas vi que seria uma besteira de minha parte, porque continuaria sendo eu falando por eles. Seria bacana se esses moços pudessem falar de si sem censura e temores. Garanto que o Diógenes seria bem diferente.

Na sua opinião, qual é a importância de abordar na literatura o universo LGBTQIA+, muitas vezes, incompreendido?

Vou reproduzir uma postagem que vi no Twitter escrita pela [quadrinista e ilustradora] Dani Franck. “To lendo um livro gay e depois vou ler outro livro gay e aí depois mais um livro gay e aí outro livro gay bom demais ser gay e poder ler livro gay se vc escreve livro gay este tweeteh para te encorajar a continuar escrevendo livro gay pq ser gay é tudo de bom e ler livro gay tbm”.

O livro é fruto de uma parceria com a Revista o Grito! Como se deu esse processo?

Amor à primeira vista. Uns rapazes antenados falando de cultura pop lutando contra a LGBTfobia, contra o racismo, apoiando as minas, não tem como não gostar deles. Também sempre tive curiosidade de experimentar um desdobramento do meu eu como fizeram Fernando Pessoa, Raimundo de Moraes, Nelson Rodrigues. Então, uns dez anos atrás, pensei, vou escrever uns artigos para eles, uns contos babados que me despreguem do meu papel principal, aí rolou uma coisa bem artaudiana, misturada com semiologia barthesiana e interacionismo simbólico e Biu da Silva entrou em cena para desgraça e glória dessa vida. 

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