Cantora lança novo álbum e fala do momento político atual, do processo difícil de criar e do valor de levar amor para esse mundo estranho

A música contemporânea do Brasil tem um capítulo reservado à , cantora que trabalha uma identidade própria em uma estética pensada e aperfeiçoada há mais de uma década. Ela acaba de se reinventar nesse seu estilo tão particular em seu mais novo disco batizado de APKÁ!, o quinto de sua carreira. “Eu tento trazer um som brasileiro, mas que está conectado com a contemporaneidade”, diz.

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Produzido por Pupillo e Hervé Salters, assim como foi o anterior Tropix (2016), o novo trabalho chega equilibrando ruptura e coerência, apresentando novidades estéticas intensas ao mesmo tempo em que reforça um fio condutor evidente que perpassa todos álbuns de Céu. É também, essencialmente, um trabalho sobre emoções. ” É um disco que fala basicamente de coisas que vivenciei, que eu sinto. Que qualquer pessoa minimamente sensível está inundada de emoções por conta desse momento tão atribulado que a gente vive mundialmente”.

Dentre as 11 faixas do disco, apenas “Pardo” e “Make Sure Your Head Is Above” não foram compostas por Céu – Caetano Veloso e Dinho Almeida, respectivamente, fizeram essas músicas inéditas a pedido da artista. Seu Jorge, Tropkillaz, Marc Ribot e Leonardo Matumona completam o time de convidados que se juntaram a ela, Pupillo, Hervé e Lucas Martins e Pedro Sá, responsáveis pelas bases das faixas.

Em entrevista por telefone, a cantora paulista de 39 anos falou ao Grito! sobre o processo por trás do excelente e recém-lançado APKA! e ainda suas críticas quanto à conjuntura política contemporânea.

Nas redes sociais, você publicou que o novo disco é uma mistura de vários sentimentos e emoções. Como isto está presente no álbum?
É um disco que eu fiz nesse momento de cuidar do meu neném, de parar, então isso já um momento super especial, cheio de emoções, inundado de hormônios. É um disco que fala basicamente de coisas que vivenciei, coisas que eu escuto, que eu sinto, que qualquer pessoa minimamente sensível está inundada de emoções por conta desse momento tão atribulado que a gente vive mundialmente.

APKÁ! é diferente dos seus álbuns anteriores?
Eu acho que traz um pouquinho da minha obra toda, todos os discos nele. Eu acho que ele resume bastante a minha maneira de compor e minha maneira de ser e a minha sonoridade. É um disco que sintetiza bem o que eu sou na música.

Como foi pensada a sonoridade de APKÁ!? E como foi o processo de composição?
Bom, é um processo longo, mas é de uma ordem muito íntima e demanda tempo, disciplina, carinho, honestidade. É um trabalho como qualquer outro em que a pessoa sai pra ir pro seu trabalho. O artista vai pro seu trabalho, mas o seu ofício está dentro de si próprio. Então, exige muita disciplina. E foi feito com muito carinho porque saiu naturalmente, de maneira orgânica, onde eu botei pra fora sensações e sentimentos meus e do meu micro-mundo, conectados com o todo coletivo.

O próprio título da obra, APKÁ! vem do grito balbuciado pelo pequeno Antonino, seu segundo filho. Como isso aconteceu?
É um desafio começar uma nova aventura que é fazer um disco, começar a dar corpo a essas canções, elas fazerem sentido e serem interessantes. E, para isso, eu me cerco de grandes parceiros, tanto os produtores, quanto os músicos, que conseguem entender as minhas influências sonoras, o som e as ideias que estou querendo expor no disco. Pra mim, é todo um processo longo, porém, extremamente, saboroso, prazeroso de vivenciar.

O disco conta com 11 faixas. Como você realiza parcerias do seu trabalho?
Eu não tenho parcerias. Eu tenho as parcerias com um dos produtores do disco, que é o Hervé [Salters], mas as outras canções que não são minhas são de compositores que eu convidei, mas não como uma parceria, como um convite mesmo. O Caetano Veloso fez uma música pra mim. Eu pedi e ele fez. E também o Dinho Almeida, que é do .

APKÁ é o quinto álbum de Céu (Foto: Marcos Costa/Divulgação)

Como enxerga a contribuição que você trouxe para a música brasileira?
Eu acho que eu pude contribuir bastante com essa questão da mulher escrever, de compor e se colocar num universo não só da intérprete. Isso foi muito explorado aqui no Brasil, mas também da compositora, da poetisa… Eu acho que eu pude ajudar um pouco e ainda são muitas coisas pra eu fazer, aprender e melhorar. É o meu quinto disco e eu tento trazer um som brasileiro, mas que está conectado com a contemporaneidade.

Recentemente, Elza Soares e Gal Costa, que são influências suas, lançaram discos com compositores da nova geração da MPB. Você sente que, após se inspirar nelas, agora é a vez delas se inspirarem em vocês?
Sim, eu sinto que elas estão observando essa movimentação feminina, de meninas lendo, escrevendo e meninas compositoras. E elas são a nossa grande inspiração. Também trazem à tona toda uma geração nova, então, eu mesma já escrevi música pra Gal cantar. Ela cantou no Estratosférica [trigésimo sexto álbum de Gal, 2015], e inclusive nomeou o disco com esta canção minha com o Junio Barreto [cantor e compositor pernambucano]. Então, elas estão ligadas em toda essa movimentação bela que acontece e estão juntas.

O Brasil está atravessando um momento de ascensão de posicionamentos ultraconservadores, de censura às artes. Como você tem enxergado esse momento vivido pelo país?
O cenário político brasileiro é sinistro, terrível, triste. É um momento da gente juntar forças pra sobreviver nessa atual conjuntura e também melhorarmos como cidadãos e cidadãs pra gente poder questionar, pra poder falar, poder ir pra rua, escutar também.

É um momento importante de escuta porque o confronto está muito latente e o que a gente puder fazer para ter calma num momento tão tenso como esse, pra poder depois se manifestar, é de extrema importância. Então, eu vejo com muito cuidado porque o momento está perigoso. Não está nada fácil o que a gente tá vivendo: do artista que não tem apoio nenhum. Na cultura, as coisas estão sendo cada vez mais tolhidas, talvez nunca tenha sido tão difícil.

Você pretende girar mais o Brasil com APKÁ! ?
Eu vou fazer o que eu sempre faço: bastante shows pelo Brasil e fora do país. Vem muito trabalho pela frente para levar o meu grito de amor para o mundo, que está bem estranho.

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