Cida Pedrosa é a poeta vencedora do Jabuti que também luta na política (Foto: Ana Siqueira / Divulgação)

Vencedora da mais recente edição do prêmio de Livro do Ano do Prêmio Jabuti, em 2020, com Solo Para Vialejo (Cepe), a poeta pernambucana , de 57 anos, é homenageada, ao lado de , na . Este ano a Bienal é realizada com o tema 2021 – O ano em que a história começa. Pela primeira vez na história, a feira será conduzida em formato híbrido (presencial e virtual), entre os dias 1º e 12 de outubro, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda.

Uma das grandes novidades anunciadas é a realização de três edições da e-Bienal antes do evento principal, nos meses de maio, julho e setembro. A primeira tem início nesta quinta-feira (27) e segue até o dia 29 de maio, com uma programação virtual, gratuita e aberta ao público. O evento contará com uma plataforma multimídia e interativa onde o público poderá acompanhar as atrações pelo site, onde também terão outras atrações promocionais, além da venda de produtos e serviços literários.

A publicação é um poema épico-lírico, que narra o retorno de Cida às origens, numa viagem do litoral ao Sertão. “Eu tive muito a possibilidade de brincar com a imagem, com a palavra, com o som, além de o livro trazer no seu conteúdo toda essa história dos músicos”, ressalta. A escritora tem ao todo dez livros publicados, entre eles Claranã (2015), As Filhas de Lilith (2009), ambos selecionados para o prêmio Oceanos de Literatura e Gris (2018).

O Sertão é uma marca indelével na minha alma, no meu corpo, na minha literatura.

Nos anos 1980, Cida, que também é vereadora do Recife pelo PCdoB, militou no Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco. Colocava seus livros debaixo do braço e ia vendê-los em bares e filas de teatro. “O movimento foi libertário porque jogou a poesia nas ruas de Recife num momento muito importante porque era um momento de construção da abertura política”, observa.

Em entrevista à Revista O Grito!, Cida falou sobre a homenagem na Bienal, seu livro premiado no Prêmio Jabuti, política e muito mais.

Como é ser homenageada ao lado do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, nesta edição da Bienal PE?

Paulo Freire é uma referência enorme para mim, para qualquer pessoa progressista e libertária que acredita na educação como um processo de transformação, como um instrumento de cidadania, de ressignificação da possibilidade de um futuro. Estar junto de Paulo Freire é uma honra nunca imaginada. Ele era comunista, eu sou também; ele acreditava na luta política, eu também; ela acreditava na leitura, eu também.

Solo é um livro imagético por si só porque eu tento, a partir da imagem, mostrar a paisagem, as pessoas. Ele tem muita imagem e muito som também.  O som marca minha literatura inteira.

 Solo para Vialejo é o primeiro título pernambucano eleito como Livro do Ano pelo Prêmio Jabuti desde a criação da categoria, em 1991. Qual a importância desse trabalho no contexto da sua obra?

Eu estou na luta literária há 42 anos. Eu tenho dez livros de poemas publicados. Solo foi o nono livro. Isso para mim é um coroamento de uma carreira que começou aos 14 anos. Eu não esperava ganhar o prêmio Livro do Ano, achava que estava concorrendo na categoria Poesia porque o livro é muito interessante. Quando fiquei ente os dez, achava que estava no páreo. Nos cinco, achei que estava mais ainda, mas ganhar o Livro do Ano foi uma coisa muito diferente. O que posso dizer é que isso alavanca a carreira nacional. Você passa a ter uma visibilidade que não tinha antes. Os prêmios servem para isso: alavancar uma carreira iniciante ou para ser um marco numa carreira mais antiga feito a minha. Estou muito feliz com isso.

Obra foi escolhida como livro do Ano do Prêmio Jabuti 2020 e vencedor na categoria Poesia

Como foi o processo de criação e escrita do livro?

O processo de escrita de Solo para vialejo foi longo, muito longo. Começou com um poema de dez laudas e inicialmente o título seria Canto para Muddy Waters. Aí, com o tempo eu fui vendo que era um poema de maior fôlego e comecei a escrever mais e mais. Como eu não tenho o tempo tradicional de escrita, como a maioria dos escritores, escrevo quando tiro férias, num feriadão, num domingo de manhã, numa madrugada quando eu acordo. Termina que o processo é lento por absoluta falta de tempo! Toda vez que eu abria o computador, reescrevia o poema. E nessas idas e vindas para o computador (foi meu primeiro trabalho escrito todo no computador, menos as dez laudas iniciais), eu ia vendo que estava diante de uma narrativa longa, com duas personagens, um eu lírico e uma coisa mais ligada à prosa, a epopeia. Aí eu fui construindo os sons, a métrica, toda a estética. Depois de terminado o poema, fui para a parte de construção gráfica (meu companheiro Senor Ramos é dessa área). Eu fui desenhando como queria espaçar o texto na página e ele ia passando para o computador. Este é um poema de muito som, imagem e de muita velocidade também

A sua narrativa leva em conta o ritmo e flerta com a poesia concreta. A intenção é dar ritmo à sua narrativa, misturada com referências musicais?

Solo é um livro imagético por si só porque eu tento, a partir da imagem, mostrar a paisagem, as pessoas. Ele tem muita imagem e muito som também.  O som marca minha literatura inteira. Mesmo quando eu trabalho um texto mais árido, ele tem uma sonoridade forte. Essa coisa da poesia concreta, na verdade, eu retomo ao meu primeiro livro, que tinha um quê de poesia concreta forte. Eu acho que é uma retomada à minha iniciação na poesia aos 15, 16 anos porque eu gosto muito de brincar com a palavra. Nesse livro, eu tive muito a possibilidade de brincar com a imagem, com a palavra, com o som, além de o livro trazer no seu conteúdo toda essa história dos músicos, dos que faziam som em minha terra.

A arte tem poder transformador: em qualquer tempo ela chega junto. Está chegando junto de todos e todas nós na pandemia.

Você nasceu em Bodocó, município do Sertão de Pernambuco, cenário de alguns de seus livros. Como essa região habita em você?

O Sertão habita em mim todinha. Bodocó, o Sítio Chico Lopes onde eu nasci, cabem inteirinhos dentro de mim. Eu não sei se eu caibo em Bodocó ou no Sertão mas, onde eu estiver, sou puro Sertão, embora eu seja completamente aculturada, transculturada, misturada com a urbanidade do Recife, o Sertão é uma marca indelével na minha alma, no meu corpo, na minha literatura.

Como você descreve a sua escrita?

Não sei se sei descrever minha escrita. Mas sei que toda vez que vou escrever um livro, gosto de brincar com coisas diferentes, de fazer viagens diferentes. Cada livro meu é bem diferente um do outro. Meu décimo livro é um haicai clássico, com cinco, sete e cinco sílabas poéticas, e eu brinquei bastante. Claranã é um livro que eu brinco com as métricas da cantoria. Gris é um livro muito da cidade. Em Solo Para Vialejo eu brinco com palavras, imagens, gestos… eu não sei como é minha escrita, mas eu gosto de brincar com as palavras.

Você já coordenou o Movimento dos Escritores Independentes Pernambucano na década de 1980. Qual importância desse movimento? E agora, estamos vivendo um intenso movimento literário, que balanço faz deste momento?

O Movimento de Escritores Independentes, eu digo em todo canto, é minha cidadania literária. Foi o espaço primeiro onde eu aprendi a dividir a palavra com outros autores e autoras. Eu não coordenei o movimento, fui uma das militantes porque nunca acreditei em coordenação do movimento, embora alguns achassem que deveria ter. O movimento foi libertário porque jogou a poesia nas ruas de Recife num momento muito importante porque era um momento de construção da abertura política. Ele serviu como ponte para muita gente dizer seus textos, vender seus livros… Era um momento de congraçamento da palavra e de outras artes. A gente tá vivendo um momento de muita difusão da literatura, mesmo de forma online, em virtude da pandemia. Mas acho que a arte tem poder transformador: em qualquer tempo ela chega junto. Está chegando junto de todos e todas nós na pandemia.

Você é considerada uma escritora feminista e, na conversa das mulheres dos últimos tempos, houve alguns desencontros entre gerações. Existe algo que a surpreende no feminismo de hoje?

Desencontro de gerações, de feministas de várias épocas, sempre acontecerá porque o feminismo é dialético. Você tem vários feminismos também: o negro, o da primeira geração, da segunda… e tem o feminismo hoje muito ligado à libertação do corpo, que nem sempre é bem entendido por outras correntes filosóficas do feminismo. Eu me afilio ao feminismo emancipacionista, pois não acredito na libertação das mulheres sem promover também a libertação dos homens. Ou seja, a gente tem que lutar por essa construção do feminismo e, ao mesmo tempo, lutar para a desconstrução do machismo e aceitar homens que queiram se aliar à nossa luta e queiram vivenciar novas masculinidades. Também me afilio a um feminismo que não está dissociado da luta de classes e do combate ao racismo. Eu só acredito num feminismo que seja pensado de forma interseccional, em que gênero, raça e classe estejam interligados. Faz-se muitas críticas às jovens feministas por elas, muitas vezes, não compreenderem essa interseccionalidade e relacionarem, o tempo inteiro, a libertação feminista ao “faça o que ela quiser” como num passe de mágica. Mas eu compreendo que são etapas. A maioria da gente jovem passa por isso. Eu não tenho conflitos com isso. A minha literatura está eivada dessa interseccionalidade e de um corpo pulsante porque a gente tem que buscar falar dos nossos corpos.

Não sei descrever minha literatura, mas gosto de brincar com palavras. (Foto: Rick Rodrigues/Divulgação).

Como é conciliar literatura e política?

Eu sempre tive que conciliar literatura e militância política, mesmo quando não era a militância política partidária bem publicizada. Sempre tive na frente de grandes lutas. Fui advogada de trabalhadores e trabalhadoras rurais, fui advogada de defesa de crianças e adolescentes na ONG Cendhec (Centro Dom Hélder Câmara), coordenei o Movimento Nacional de Direitos Humanos… Então isso sempre teve muito ligado e é um problemão porque eu tenho pouco tempo para a literatura. E não adianta reclamar porque eu faço 20 anos de terapia e termina sendo essa enroscada e eu tenho que resolver isso. Eu escrevo menos do que gostaria, às vezes acho que pior do que deveria… A resposta maior é: eu vivo!

Também me afilio a um feminismo que não está dissociado da luta de classes e do combate ao racismo. Eu só acredito num feminismo que seja pensado de forma interseccional, em que gênero, raça e classe estejam interligados.

Como as políticas públicas do Estado atendem (ou não) aos anseios da literatura de Pernambuco?

As políticas públicas de literatura ainda estão longe de ser a tão sonhada política nacional, estadual e municipal do livro e da leitura que trabalharia toda uma cadeia produtiva: autores e autoras, leitores e leitoras, editoras, visibilização, livrarias, bibliotecas. Está longe, mas se avançou muito no Estado nos últimos anos.

Você acha que a poesia pode nos salvar num cenário de pandemia e torná-lo mais suportável?

Pessoas me acham romântica, mas eu não sou. Para mim, a poesia salva. Sempre achei. Salva um instante, salva uma tarde, salva um momento de felicidade ou de reflexão. Acho que, na pandemia, a poesia e a literatura voltaram a ser âncora de muita gente. A solidão, você trancado em casa… Principalmente para as pessoas que têm acesso a livros. Está comprovado que as vendas aumentaram. Gostaria eu que isso fosse possível para toda a população.

Como enxerga o atual momento político do país? Como tem recebido o impacto nas artes? Está difícil fazer arte em 2021?

Fascistas não gostam de arte e este não é um momento fácil para quem faz arte. Mas nós estamos habituados a lutar e, mais uma vez, a gente está sendo âncora na internet, inclusive para dar alívio, para instigar, para fazer pensar em liberdade. A arte transforma.

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