“Essa é a real magia da música, fazer e sentir o retorno na hora”: é com esse espírito que o cantor e compositor Juba faz o seu primeiro show pós-pandemia. Ele se apresenta no sábado (30), na Casa Estação da Luz, em Olinda, dando início à série de shows do programa Tardes Olindenses, que será realizado sempre aos sábados, uma vez por mês. O nome Tardes Olindenses é uma homenagem ao antológico Noites Olindenses, realizado nos anos 1980 pelas produtoras Andrea Motta e Liliane Magalhães. A atração será eternizada pela composição homônima de Carlos Fernando, marca a história cultural da cidade.

Juba apresenta a fusão dos ritmos nordestinos tradicionais, com uma sonoridade própria e uma roupagem moderna. O artista apresenta pela primeira vez ao público o seu show Ethos, seu primeiro álbum solo, lançado no final de 2020, além de músicas inéditas. Juba estará no palco em formato trio, com Erick Amorim no teclado e sintetizador e Phillippi Oliveira na viola sertaneja e guitarra. “O show no sábado será com todo mundo sentado. Inclusive eu, Erick e Phillippi estaremos sentados também hahaha quase que de forma solidária a quem ouve”, pontua o cantor.

A produção musical é assinada por Júnior do Jarro e a mixagem por Duguinha Dub. O álbum contém onze músicas que refletem a produção de Juba dos últimos sete anos, quando atuou também como vocalista da banda carioca Açucena, banda que fazia covers do cancioneiro nordestino, como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale.

Juliano Valença (ou Juba), é filho de Alceu Valença, patrono da Casa Estação da Luz, um dos pilares da música pernambucana e brasileira. Nascido há 29 anos, no Recife, com apenas quatro meses de idade, seguiu com os pais para o Rio de Janeiro, onde cresceu.  “Acho que o nome Juba é uma forma de liberdade, principalmente artística”, reflete. E acrescenta: “Não consigo me ver como artista sem pensar nele. Com certeza é a minha maior referência”.

A ligação com Pernambuco sempre esteve presente, no dia-a-dia com o pai ou no convívio nas visitas ao estado, algumas vezes por ano. Desde 2017, ele mora em Olinda, na Cidade Alta, com a parceira de disco e de vida, Carol Montenegro.

Sobre o atual momento político do país, o cantor não poupa críticas ao presidente Jair Bolsonaro e repudia a forma como o governo tem conduzido o país. “Eles servem ao agro e a bíblia. Essa é a base deles. Nunca interessou o pensamento e a reflexão. A arte está no fim da fila”, afirma.

A abertura da Casa Estação da Luz é a partir das 15h, já o show começa pontualmente às 17h. Os ingressos custam R$ 44 e podem ser comprados no Sympla.

Batemos um papo com Juba sobre a volta aos palcos, sua música, influências, sobre o Brasil e muito mais. Confira:

Primeiramente, você poderia falar um pouco de quem é Juba, e, em seguida, falar como entrou no mundo da arte?

Então, me desconheço o tempo todo. Sinceramente não sei dizer quem sou, assim de prontidão. Acho que o nome Juba é uma forma de liberdade, principalmente artística. Não é meu nome de batismo, mas sempre fui chamado assim, desde a primeira infância. O Juliano, sempre serviu de esporro hahaha. De início, recusei o apelido, mas acabou pegando. Principalmente entre a família e amigos. Vim adotar o pseudônimo como “nome” mesmo, agora. Já até recebi coisa dos correios com o nome; Juba como destinatário, e o carteiro não queria me deixar pegar a encomenda. O Juba entrou tanto no cotidiano profissional nos últimos tempos, que, às vezes, eu cometo essas trapalhadas.

Sobre como entrei no mundo da arte: nasci no meio disso, principalmente na parte da música. Não tenho recordação do primeiro show que vi, mas com certeza deve ter sido do meu pai. Foram muitas coxias em shows de teatro, festivais, shows em praça pública… e por aí vai. Pra mim, esse universo sempre foi o normal. Quando perguntavam pra mim: “como é ser filho de famoso?”, ou “vai seguir a carreira do pai?” Sempre fiquei pensando que na real nunca soube como era o inverso. 

Como está sendo essa volta aos palcos? Qual sentimento de voltar a se apresentar em público após essa parada compulsória, em virtude da pandemia?

 Vai ser no mínimo curioso. Será o primeiro show do álbum Ethos. Lancei ele na pandemia, no ano passado, e ainda não tive o real feedback do público. Quero sentir como cada música toca na plateia. Essa é a real magia da música, fazer e sentir o retorno na hora. A gente cria as canções, grava… mas o gostoso mesmo é ali, na troca com quem está ouvindo o insubstituível ao vivo. Nenhuma live do mundo vai substituir o eu e você. Ou, você e eu.

Nos palcos, qual relação gosta de estabelecer com o público? Sentiu muita falta de poder ter contato com as pessoas, de poder realizar esse ritual?

Com certeza, na real, ainda não voltamos de fato ao normal. Apesar da flexibilização, não acredito que seja a hora da gente extrapolar na aglomeração. Os formatos estão se adequando à realidade. O show no sábado será com todo mundo sentado. Inclusive eu, Erick e Phillippi estaremos sentados também hahaha quase que de forma solidária a quem ouve. Acho bacana esse desafio, mas meu rolé sempre foi tocar em pé mesmo.

Durante a pandemia, as lives se tornaram centrais para os artistas da música. Como tem visto esse novo cenário?

Ótimo para a sobrevivência dos músicos. No começo foi uma distração assistir as lives, mas acredito que o formato está saturado. A gente vive diante das telas todo dia, como disse antes, nada substitui o tradicional “ao vivão”.

E o que está preparando para essa apresentação na Casa Estação? Qual repertório pode adiantar para o público?

Então, para show na CEL vou tocar as músicas do Ethos, e canções que compus durante 2020/2021. O repertório é majoritariamente composto por músicas autorais, têm três canções que não são de minha autoria, duas que estão no Ethos, e uma que ensaiamos especialmente para esse show.

 Álbum abraça filiação nordestina do jovem músico pernambucano. (Foto: Meyrianne de Mira / Divulgação)

Você nasceu no Recife, morou grande parte da vida no Rio de Janeiro e agora vive em Olinda. Nesse sentido, como você enxerga a sua arte influenciada por essas partes do Brasil?

Quando morava no Rio fazia muita música nordestina. Agora que estou por aqui, tenho feito alguns sambas. Pretendo dar um rolé por aí quando estiver tudo de volta ao “normal” pra frutificar a música que ando fazendo, nada como o privilégio de sentir da onde a música vem em loco. Aqui em Olinda, têm música pra todo lado, de tudo que é jeito.

O que inspira a sua arte?

Acho que ainda estou descobrindo. A gente faz, porque a gente gosta. É gostoso demais mexer com os sentidos.

Você canta músicas de outros artistas, mas também é compositor. Como funciona esse seu lado criativo? Quem é Juba compositor?

Pois é, no Ethos canto “O Sertão Precisa é Disso”, de meu pai e “Xote Manso” de Tyaro Maia e Dudu Souto. São duas músicas que combinam muito com o bojo do álbum, e fico muito feliz de poder gravá-las.  Mas na real, não me sinto muito confortável com o lance de intérprete. Não me vejo como cantor, gosto de cantar o que ando fazendo sozinho e com os parceiros de composição. Tenho uma dificuldade grande de compor em larga escala, tem gente que tem uma facilidade para encontrar as melodias e palavras. Acho muito foda quem tem esse acesso rápido ao subconsciente. Aos poucos, estou liberando os canais da cabeça sem me preocupar tanto com o resultado e sim com o processo. Esse negócio de 99% fritação do juízo e 1% inspiração é real.

Seu álbum de estreia é Ethos, lançado em 2020 nas plataformas digitais. Como foi organizada a sonoridade do disco?

Tive grandes parceiros na feitura do disco. Júnior do Jarro, produtor musical, me ajudou muito nesse processo. Juntos, fomos construindo as concepções de arranjo. E cada um que chegou no trabalho botou sua marca digital. Foram mais de 20 contribuintes, o disco têm essa sonoridade coletiva muito presente. E uma organicidade também, fizemos praticamente como era feito antigamente: as músicas foram gravadas no formato ao vivo, sem metrônomo, e com pouquíssimos overdubs. Acredito que essas condições levam para um lugar bem vivo, sem o excesso da régua na edição. Pretendo um dia também fazer um álbum todo sozinho, para dizer que de fato: “fiz um álbum solo”. Mas antes, tenho que estudar os programas de gravação, técnicas de gravação e afins. Tenho que superar esse lance meio matuto em tecnologia hahaha. Mas enfim, é gostoso esse lance de fazer disco, hoje a galera tem lançado muito single. As plataformas e agregadoras estão dando preferência para músicas solitárias nas playlist editoriais. E quando um artista novo lança um disco, se perde no algoritmo. Acho astral lançar single, EP, mas o álbum têm aquele lance de contar uma estória.

A pernambucanidade de Juba sempre esteve presente, por mais que ele tenha passado boa parte da vida no Rio. (Foto: Meyrianne de Mira / Divulgação)

Você se posiciona em relação à política nas redes sociais? Como tem visto a atuação do (des)governo federal em relação às artes?

Eu até que me posiciono nas redes, mas também nunca tive a verve da militância. Volta e meia reposto alguma coisa, mas não com muita frequência. Acho que meu disco fala por si só muito do que penso. É muito triste o que aconteceu com o Brasil, abriram as porteiras da mentira, e muita gente cai nessa. Fico bem triste de ver o lugar que a gente chegou. E é escancarado onde o governo federal quer ficar perto: eles servem ao agro e a bíblia. Essa é a base deles. Nunca interessou o pensamento e a reflexão. A arte está no fim da fila.

Você acha que o papel dos artistas é de resistência, mas também despertar esperança?

Eu acho que cada um se expressa como se sentir mais confortável. Tem artista que fala de amor, da realidade, de política, do rolé que deu na praia… Enfim, acho que têm espaço pra tudo. A liberdade está aí.

Qual influência do seu pai, o cantor e compositor Alceu Valença, na sua formação como artista?

Não consigo me ver como artista sem pensar nele. Com certeza é a minha maior referência. Ele é movido por esse desejo. O jeito como ele vê o mundo gira entorno da poesia, com choques de realidade no meio do caminho. Quando se distância da música, corre para escrita, quando não é nenhum dos dois, ta pensando num roteiro… e por aí vai. Acho muito interessante os mergulhos que ele dá em cada projeto, é como se fosse uma obsessão. Parece que não existe mais as horas e os dias. Seu eu tiver ao longo da vida 30% da obstinação dele, fico contente.

Você pode nos contar como está sua carreira no momento e o que almeja para o futuro próximo?

Acho que aos poucos meu trabalho está sendo acessado. É tudo feito com muito carinho e de forma muito honesta. Acredito que as coisa vem de forma natural. Acho massa olhar pra trás e ver o quanto de coisa bacana já lancei por ai. Sempre procuro curtir o processo. Pro futuro, é seguir produzindo.

Leia Mais
Festival No Ar Coquetel Molotov retorna com edição presencial