“Fazer arte nesse país hoje é como fazer qualquer coisa massa neste país hoje, beira o impossível”, decreta , um dos destaques do Rec-Beat 2020, que tem início neste sábado (22). Na edição comemorativa de 25 anos do festival, que ocorre de 22 a 25 de fevereiro no Cais da Alfândega, no Recife, a cantora apresenta o repertório do seu disco, Desmanche, um trabalho que traz uma reflexão muito factual sobre o desmonte do país, mas que também busca um lugar de respiro.

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Um dos principais nomes da cena musical brasileira brasileira, Karina nasceu em Salvador, mas, aos oito anos, se mudou para Recife, onde cresceu e iniciou a carreira musical.  Esta não é a primeira vez de Karina Buhr no Rec-Beat, que mantém uma relação antiga com o festival. Ela esteve presente desde a encarnação anterior do evento, ainda distante do formato atual, com edições em São Paulo e Olinda. Em 2013 ela apresentou seu segundo trabalho, Longe de Onde, e em 2016 lançou Selvática, em um dos mais catárticos shows já vistos no Rec-Beat. Karina ainda assinou a arte do festival neste mesmo ano.

O novo disco traz faixas como “A Casa Caiu”, “Sangue Frio” e “Temperos Destruidores”, “Peixes Tranquilos” e “Nem Nada”. Karina coloca ainda mais em evidência os tambores, instrumentos que marcaram seu início da música, em 1994, nos maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante do Recife. Percussionista experiente, Karina sempre trouxe o peso dos batuques para sua sonoridade, mas Desmanche é talvez o seu trabalho que melhor destaca o peso e personalidade desses instrumentos.

Nesta entrevista para O Grito!, a cantora fala de diversos temas, de música a política, além de memórias sobre suas idas ao Rec-Beat. A cantora se apresenta neste sábado (22) no Rec-Beat . Confira!

Desmanche parece comentar muito do que estamos vivendo hoje, como se tentasse traduzir um sentimento compartilhado de indignação, inquietação. Ao mesmo tempo também vai em outra direção, de introspecção. Pode nos contar um pouco como foi compor esse disco?
São necessidades minhas mesmo. O guerreou e o respira. Tática de sobrevivência ou instinto, não sei. Aí pego isso e faço letras, roteiros em cada música e pro disco todo crio melodias e divisões rítmicas que façam sentido com elas e vou esmerilhando com o tempo.

O Brasil atravessa um momento de ascensão de posicionamentos ultraconservadores, de censura às artes. Como você tem enxergado esse momento vivido pelo país? Como é fazer arte nesse momento?
Fazer arte nesse momento é agir sob sucateamento e tensão e para muitos significa parar de fazer sua arte. Com ministério da Cultura, Ancine… jogados no lixo, com a censura tudo para. A criação não para, porque enquanto tem vida tem criação artística, mas a censura começa a agir antes mesmo de atuar de fato. O medo da censura já é capaz de calar muita gente, olhar o entorno cruel é muitas vezes paralisante. O pensamento e a criação estarão sempre vivos, mas em determinadas épocas tendo que ralar mais para existirem um grande público. Fazer arte nesse país sempre foi difícil pra muita gente que tem direitos negados e agora está ainda pior e tende a não ter freio essa escalada, visto que as instituições estão em sua maioria apenas assistindo. Fazer arte nesse país hoje é como fazer qualquer coisa massa neste país hoje, beira o impossível.

Desmanche está repleto de novas colaborações. Depois de tantos anos trabalhando com sua banda, como se deu essa nova fase com novos nomes?
Na verdade são parceiros bem antigos meus. Regis Damasceno toca guitarra comigo já há um tempo e convidei ele também para produzir o disco juntos. Maurício Badé (percussão) é amigo e companheiro de música há mais de vinte anos. Quem conheci a pouco tempo e achei incrível e convidei pra tocar nos shows do Desmanche é Charles Tixier (mpc e teclado). Gravei três discos com a mesma banda, de amigos e músicos maravilhosos e fizemos coisas bem bonitas. Me deu vontade de mudar a maneira de arranjar, mudar instrumentos e maneira de tocar, tirar a bateria e trazer a percussão pra frente do meu trabalho de novo, como era quando comecei a tocar, lá por 1994. Sempre fiz minhas músicas só com tambor e voz mas essa percussão estava sumindo na hora de arranjar e de levar pro show. Resolvi trazer ela de volta e com outros músicos igualmente incríveis.

Karina Buhr. (Foto: Priscilla Buhr).

Este disco tem uma presença marcante da percussão, que é algo que acompanha seu trabalho desde sempre. Pode nos contar um pouco como foi construir a sonoridade para este disco em relação ao anterior, Selvática?
Pro Desmanche não fiz uma “tradução” da percussão, mantive ela onde estava originalmente quando fiz as músicas. Queria som de tambores, agressivos, nos tantos tipos de graves que dá pra tirar de alfaias, ilus, zabumba e calmos, no tantos de timbres agudos e médios que se tira de atabaques, congas, djembes…trazer a letra, a voz pra frente também junto com isso.

Você apresenta seu novo disco no Festival Rec-Beat, numa edição representativa dos 25 anos do evento. Sua relação com o Rec-Beat é antiga, certo? Como é ser uma das headliners do evento neste momento especial?
Sim, participo do Rec Beat desde o começo, desde a primeira vez, antes desse formato consolidado em Recife, que foi no Aeroanta, em São Paulo, em 1994. Um ônibus de Recife para São Paulo com um monte de bandas. Faz parte da minha vida. Esse ano é lançado um disco e fechando o sábado, maravilhoso e importante pra mim. Mas acho todos os horários interessantes, a dinâmica do carnaval permite isso. Estou bem feliz de tocar nessa noite e vamo simbora pra beira do Rio!

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