Artista, que lança o disco de estreia Rito de Passá, fala sobre influências musicais, feminismo, religião e política

, atração do Festival Coquetel Molotov, neste sábado (16), no Caxangá Golf & Country Club, na Zona Oeste do Recife, é um dos expoentes do funk que melhor representa esse amadurecimento: um trabalho que explora este e outros ritmos brasileiros, numa mistura criativa e dançante.

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Nascida Thais da Silva, esta jovem cantora de 24 anos é moradora da Cidade Tiradentes, bairro da Zona Leste de São Paulo, onde começou a cantar aos 15 nos primeiros bailes funk organizados na sua quebrada. De lá pra cá estudou jornalismo, trabalhou em projetos culturais e se aproximou de artistas que a inspiraram a voltar aos palcos, como o grande amigo e cantor Jaloo. Sua maior contribuição, além de um olhar criativo e instigante para o gênero, é sua abordagem distante dos padrões. “A mulher sempre teve e tem ainda um lugar estereotipado dentro do funk”, observa ela.

A cantora utiliza o ritmo que se consagra no Brasil para levar sua voz ao mundo e ajuda construir a pluralidade que vem definindo o Funk nos últimos anos. “Eu sempre quis fazer coisas diferentes, sempre gostei de ouvir músicas brasileiras por conta da minha família”, explica sobre a aceitação da presença de uma mulher no palco cantando funk.  

MC Tha vem ao Recife apresentar seu álbum de estreia, o elogiado Rito de Passá. Ela respondeu algumas perguntas à Revista O Grito!. Confira abaixo:

Como surgiu a MC Tha? Quando você percebeu que queria ser cantora e como é ser cantora de funk?

A MC Tha surgiu na cidade de Tiradentes, em 2009, quando em eu comecei a me envolver com funk que já estava se organizando timidamente nas periferias da capital de São Paulo. E, na época, eu era a primeira MC mulher que surgiu no bairro. E foi em um grupo de amigos que eu comecei a cantar. Não era nada que eu planejasse desde sempre ser cantora ou, enfim, cantar funk.

No começo como era ser mulher e cantar funk? Você teve aceitação?

No começo era bem complicado. A mulher sempre teve, e ainda tem, um lugar estereotipado dentro do funk. Então, tudo aquilo que foge desse estereótipo não tem boa aceitação. Eu sempre quis fazer coisas diferentes, sempre gostei de ouvir músicas brasileiras por conta da minha família. Eles sempre ouviram muita música brasileira e, dentro do funk, eu sempre quis misturar o funk com outras coisas. Só que na época tinha isso: o funk tinha acabado de chegar na capital de São Paulo e ainda estava se formando. Tinha ainda o estereótipo do ritmo: tudo que não tinha uma base – o  chu chu cha – não era considerado funk.

Depois tem essa de ser mulher e receber feedbacks de que eu não sabia dançar, que não tinha corpão e tinha sempre que me adequar para entrar nesse perfil da “mulher no funk”. Foi até por isso que, quando eu fiz uma pausa, aos 18 anos, comecei a estudar jornalismo, trabalhar num projeto social e tive um afastamento do funk. Quando decidi voltar a cantar eu repensei muito sobre quem eu era e sobre quem eu podia ser dentro do funk. E passei a pensar sobre qual tipo de funk eu fazia. Entendi que nem precisava ser o comercial que tava rolando na época, que foi logo depois daquela fase do [movimento] ostentação, e nem precisava ser o funk de fluxo, porque eu achava que não me cabia.

Nas suas redes sociais a religião é um tema constante. De onde vêm seu contato com a Umbanda?

Eu falo de religião nas minhas redes sociais porque, desde quando eu entendi que eu queria fazer na música e quem eu sou e podia ser também, eu saquei que sou uma artista que tem a função social de desmistificar as coisas. De, por exemplo, desmistificar essa questão da artista mulher, principalmente. Ter uma imagem impecável nas redes sociais, no sentido de sempre aparecer muito produzida, photoshopada, sempre muito maquiada… Então, meu trabalho beira muito a minha realidade: as coisas que eu vivo no dia a dia.

A religião faz parte disso, eu sou umbandista, trabalho em terreiro de Umbanda, todos os sábados, quando eu não tenho show. A gente presta atendimento gratuito e espiritual todos os sábados. Isso faz parte da minha rotina, assim como a afirmação do meu cabelo, do meu corpo, da minha imagem mais natural, é mais livre de padrões impostos. Não é só porque é Umbanda que eu fico expondo a religião, mas sobre tudo o que movimenta e está em torno do meu trabalho. Meu contato com a Umbanda vem a partir disso: eu frequento terreiro, sou médium, trabalho dentro. Não é nada de ter afinidade ou ser simpatizante e que eu fique expondo. Eu realmente vivo.

“Saquei que sou uma artista que tem a função social de desmistificar as coisas.”

Essa espiritualidade influencia no seu processo artístico?

Influencia no sentido de eu ter muito mais confiança em que eu sou, de entender a minha natureza, os meus processos, ser mais tranquila comigo mesma. De não pegar tão pesado comigo mesma, não me cobrar tanto. Hoje eu entendo muito mais que as coisas são processos, levo a música muito para um autoconhecimento, então é outro tempo, outra coisa. Quando eu conheci o terreiro, eu já tava nesse momento de tentar me entender, tanto na música e também enquanto mulher na sociedade. E quando eu conheci a Umbanda, realmente, me encontrei comigo mesma. Foi um reencontro muito bonito.

Você compõe as suas músicas e também já compôs para outros artistas. Como é seu processo criativo?

Eu componho todas as minhas músicas e meu processo criativo funciona de uma forma muito intuitiva. Eu não tenho formação musical, nem fiz aula de canto, escola de música… mas tem essa formação mais de ouvir mesmo. Eu ouço muita música brasileira e tudo o que é produzido de arte no Brasil, é o que me contempla. Não consumo nada vindo de fora.

De onde vêm as suas principais referências e inspirações?

Eu parto sempre do funk porque foi a partir dele onde eu me entendi como compositora, como cantora… Na verdade, não é nem quando eu me entendi, é quando eu iniciei. É o início de tudo. Por mais que eu tenha passado por outras coisas, eu sempre volto lá no começo para não deixar morrer essa identidade que eu tenho. O funk para mim é isso: uma identidade. É muito além de eu estar cantando de uma base de funk ou não. É meu jeito de me comunicar, de lidar com as pessoas.

A sua música carrega várias influências do funk mesclada com outros estilos. Como define o seu estilo musical?

Eu não procuro me definir muito não, tipo ficar entendendo qual é meu estilo musical de fato. A minha ideia é ter essa liberdade de fazer o que eu quiser dentro das coisas que me cabem. Mas claro, dentro daquilo que faz parte da minha vivência e influências.

O funk para mim é isso: uma identidade. É muito além de cantar uma base de funk ou não. É meu jeito de me comunicar

Você e o Jaloo são amigos há bastante tempo e depois de muita espera vocês finalmente lançaram uma colaboração. Como foi produzir a canção “Céu Azul” com ele?

O Jaloo e eu já tínhamos uma colaboração juntos, que foi no primeiro álbum dele com a música “A Cidade”, que fui eu que compus também. E quando rolou “Céu Azul” foi muito bonito porque ela é a continuação. É assim que entendo na minha cabeça e é uma música que eu compus toda. Ele ouviu, gostou, quis gravar e me chamou pra gravar com ele. Pra mim, é sempre bom qualquer tipo de parceria que a gente faça. Nós temos parcerias em clipe, ele já dirigiu clipe meu, já produziu músicas minhas, já cantou minhas canções… A gente vive nessa eterna colaboração e é muito especial porque ele é uma pessoa que me “deu a mão” quando eu tinha dado uma pausa. Ele foi quem me inspirou a voltar a cantar e a tentar de novo. Então, é sempre muito bonito ter ele por perto.

Sua banda é toda composta por meninas. Isso aconteceu de forma orgânica?

Não aconteceu de forma orgânica porque se a gente for analisar o atual mercado hoje, eu seria mais uma mulher com um discurso feminista, de empoderamento, mas com uma banda e equipe composta por homens, que é o que acontece na grande maioria das vezes. Sei lá, talvez fosse mais fácil.

Desde a produção do álbum, eu já havia colocado isso na cabeça de que quando fosse a época do lançamento e formar a banda, seria apenas com mulheres. Antes eu me apresentava voz e DJ apenas, e mesmo assim eu trabalhava só com DJs mulheres. Há um tempo eu já pensava em procurar meninas para formar a minha banda. Eu acho que é importante a gente sair dessa zona de discurso, discurso, discurso… e, quando chega na hora, MC Tha com um bocado de macho em cima do palco.

Eu tenho muito esse lado: não sou muito de discurso, de textão não, eu sou mais de atitude, de pegar e fazer. O que eu puder para acrescentar mais mulheres e minorias, eu vou fazer. Eu não vou ficar reclamando e nem discursando em rede social. A mudança começa da gente perceber o nosso entorno e, aos poucos, ir mudando.

Como você enxerga o atual momento político do país? Como tem recebido o impacto nas artes?

É triste tudo o que tá acontecendo, mas ainda assim eu acho que o negativo no Brasil é uma forma da gente aprender. Voltarmos para nós mesmos e se entender como povo que pode se juntar, entrar mais em comunhão, para conseguir estabelecer mudanças. Eu acredito que muita coisa negativa ainda vai acontecer. Eu entendo dessa forma: é pra gente tentar se entender enquanto povo. As eleições mostraram como a gente tá dividido.

Acredita que o Funk está passando por um processo de amadurecimento, mirando o mercado internacional das periferias culturais do mundo e também conquistando o público brasileiro?

Sim, eu acredito que o funk passou por um processo de amadurecimento. Depois da ostentação, o funk conseguiu atingir outros patamares, outros públicos. Eu só fico preocupada com esse mirar no internacional, que eu acho que não vem muito. Eu sempre falo muito que o funk tá passando por uma revolução muito grande, mas o protagonismo quem tá tendo não é quem merece ter, que são os MCs e DJs de periferia. A gente tem que prestar atenção quando a gente fala que o funk tá mirando o mercado internacional, conquistando o público brasileiro. Aí existem recortes dentro disso. Quem tá na periferia está na mesma miséria de sempre, tomando bala de borracha, esculacho de polícia, enquanto tem uma galera que higienizou o funk e tá aí lucrando com isso. Vide Rennan da Penha [DJ carioca]: o funk com toda essa ascensão e ele preso.

Seu nome foi um dos que mais o público do Recife pediu nas redes sociais para o deste ano. Qual a expectativa para esse encontro com o público da capital pernambucana?

Eu tô muito feliz com tudo o que tá acontecendo. Eu sou uma pessoa muito “pé no chão”, então eu só tinha essa missão de lançar esse álbum [Rito de Passá] e, pra mim, já tava tudo bem. É muito bonito perceber o quanto ele tá atingindo as pessoas. Quando eu vou cantar em outros estados, eu acho que não vai ter ninguém, mas eu chego e tem uma galera esperando e cantando todas as músicas, participando do show. Então é muito bonito ver como o álbum tá sendo bem recebido e o alcance que teve porque não tive pretensão nenhuma de ser o melhor álbum do ano, “todo mundo precisa ouvir ou saber”, nada disso. Eu tinha muito essa inquietação de lançar, eu precisava colocar na rua.

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