Com a pandemia e a necessidade de isolamento social, os impactos econômicos e sociais nos setores artísticos e cultural têm gerado consequências diretas e negativas nas vidas de artistas e produtores. “O mercado passou a exigir diversos tipos de produções instantâneas em editais de caráter emergenciais. Isso fez com que eu perdesse um pouco do tesão de criar durante o isolamento social”, confessa Márcio Sá, artista do circo e da dança. E é exatamente essa necessidade de envolvimento com outras pessoas que faz com que a produção cultural seja mais atingida do que outros setores da economia.

Recifense, Sá pesquisa sobre o corpo e realiza performances, vídeos, instalações e intervenções. Já se apresentou na rua, em festivais de circo e de artes cênicas. Em 2019, ganhou o Prêmio Palhaço Cascudo de Incentivo às Artes Circenses. Já participou de trabalhos na Compassos Cia. de Dança, e tem trabalhos como INTIMUS (2015), FUA / la lengua ne nuestras possibilidades (2016), Brincar Juntos (2017), Varieté Itinerante (2019) e Erotic Circus Show (2020).

Agora em 2020 Sá está em busca de um dos sonhos da sua vida, que é fazer uma formação profissional de circo. Ele foi selecionado para uma das 15 vagas na seleção do Núcleo de Formação Ampliada ao Artista de Circo (NUFAAC), na cidade de Goiânia, em Goiás. Para tanto, ele precisa de apoio e abriu um financiamento coletivo e conta com a colaboração dos apoiadores locais. Para contribuir, basta acessar o site. O curso tem início em janeiro de 2021. Batemos um papo com o artista sobre a conjuntura política brasileira, pandemia e o papel da arte. Confira:

Você se dedica a estudar o corpo e o movimento. O corpo parece o espaço mais palpável onde a arte acontece, onde os sentidos são estimulados e percebidos?

Acredito que os sentidos vêm de maneira grande e forte quando fazemos algo que desejamos. Ao pensar no corpo e na mente como uma coisa só, temos o movimento como instrumento de melhoria de qualidade de vida e bem-estar. Afinal, biologicamente, os exercícios físicos e artísticos estimulam a produção de hormônios como dopamina, serotonina, ocitocina e endorfina, que trazem essas sensações. Costumo pensar que o movimento e a arte estão em todos os lugares: nas árvores, nos pássaros que voam, nas águas dos rios, em tudo. Trazer isso para o corpo em forma de arte é um processo de tratamento e cura, tanto física, quanto emocional. A arte é terapia e existem muitas pesquisas que trazem o movimento e a arte como tratamentos terapêuticos que podem comprovar isso.

Qual a memória mais recente de você querer trabalhar com arte, se apresentar?

Desde criança sempre quis trabalhar com arte, mas devido à realidade da minha família e do país, isso nunca me foi colocado como uma possibilidade. Tive que apagar da memória esse sonho que se tornou um desejo latente. Lembro que, ainda criança, fazia apresentações com meu irmão para nossos amigos. Criávamos cenas com dramaturgias, cenários, figurinos e maquiagem – tudo improvisado por duas crianças com sete anos de idade. Quase todos os dias era uma apresentação diferente. Mas isso foi se apagando com o tempo e tive que encarar a realidade, pensando em ter uma profissão considerada “normal” pela sociedade e bem remunerada. Depois da primeira graduação, percebi que fazer o que gostamos é o que dá sentido à vida. Então, aos 23 anos, fui correr atrás desse sonho, fazendo pequenas formações em circo, entrei no curso de Licenciatura em Dança e passei a ver a arte de forma profissional. Comecei a ter experiência enquanto artista e como produtor cultural. Foi uma chave que virou e me fez me enxergar enquanto um profissional das artes.

Como foi que as artes cênicas surgiram para você? 

Sempre fui um fruidor das artes cênicas desde que me entendo por gente, assistindo a espetáculos, visitando museus e participando de manifestações na rua como rodas de coco. Mas para ter coragem e trabalhar com arte, eu precisei ter muita0000000 cara de pau. Preciso falar sobre a minha primeira aula de circo, foi algo inusitado. Em 2013 eu sempre estava pedalando pelas ruas do Recife e fiz um acordo comigo mesmo de, depois das aulas de inglês, passar cada tarde em uma praça diferente. Entre os passeios, depositei um pouco do meu tempo na Praça do Arsenal da Marinha, no Recife Antigo, e então, vi um pedaço de uma lona de circo que estava armada no anfiteatro da Torre Malakoff. Como bom curioso, fui ver o que estava acontecendo e me deparei com um grupo de jovens fazendo aulas de circo. Era um projeto chamado Pirueta Circo Social, que oferecia oficinas justamente para apresentar o mundo do circo para jovens e adultos. Desde então fui fazendo outras oficinas e não parei mais.

Uma crise de saúde pública como a atual pode causar um abalo histórico. Como você vê o papel de artistas em crises de grandes escalas?

As apresentações artísticas são trabalhos que permeiam diversas culturas e classes sociais. No período de pandemia do coronavírus ficou bem claro a importância dos artistas a nível de entretenimento. Todas as pessoas estavam assistindo algo para manter sua mente ocupada de alguma forma. E é nessa pegada que devemos encontrar fissuras para causar provocações na sociedade, fazendo com que as pessoas reflitam sobre os contextos que estão inseridos. Essas provocações podem existir sobre diversos assuntos, trazendo discussão sobre raça, gênero, sexualidade, meio ambiente, classes sociais e consumo, educação… ah, tem um mundo de possibilidades.

Existem corpos específicos que são perseguidos, não só na arte, mas em todos os meios. São corpos dissidentes do padrão heteronormativo e cisgênero.

Como você avalia o papel e a importância das artes no contexto político atual no Brasil, quando vivemos uma série de tentativas de restrição e censura tanto de cunho moral, através de acusações nas redes sociais, quanto propriamente institucionais? Já sofreu algum tipo de tolhimento?

Eu cresci vendo a arte com um papel muito importante nesse meio. Era e é um caminho de provocações, de reflexões e um grito da sociedade. Sabe aquelas criações que dão arrepios? Tive a sorte de assistir a shows e espetáculos que mexem comigo só de lembrar. Acredito na arte como papel fundamental na sociedade no contexto político. As diversas linguagens inspiram, levantam discussões, trazem reflexões com um alcance muito maior que outros meios. Inclusive de tocar pessoas que não são muito familiarizadas com determinados assuntos, incluindo a política.

Jamais imaginei que poderíamos viver esse momento retrógrado sobre a liberdade artística com essa onda reacionária. Primeiro fui me assustando vendo notícias e ouvindo relatos de trabalhos que sofreram algum tipo de silenciamento, mas nos últimos anos a coisa só foi crescendo, de forma criminosa, chegando a ter casos de agressões. Tanto que vivi isso na pele.

Em janeiro deste ano fomos apresentar um espetáculo na Convenção Brasileira de Malabarismos e Circo, que aconteceu na cidade de Eusébio, no Ceará. Até o momento da apresentação, tudo aconteceu de forma tranquila, uma vez que havia classificação indicativa e horário apropriado. Mas no dia seguinte, um morador me mostrou uma publicação no instagram de notícias da cidade que dizia que o secretário de cultura havia sido exonerado. Tudo isso porque havia um beijo entre dois homens (eu e Hikel Brown). A ficha demorou a cair e começaram a surgir várias matérias falando sobre o caso com fotos minhas estampadas. Mas isso só nos deu força para melhorar o espetáculo e fazer um trabalho mais robusto, trazendo mais críticas e questionamentos sobre homofobia e machismo.

Márcio durante performance: “o circo é uma linguagem muito carente aqui no Brasil”.

Muitos artistas, por meio de diferentes expressões artísticas, partem do corpo para expressar sua arte ou denunciar a violência social, cultural e política, como nos casos da atriz transexual Renata Carvalho (da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu) ou do coreógrafo Wagner Schwartz (com a performance La Bête), por exemplo. Na sua opinião, a que se deve essa perseguição aos corpos na arte?

Acredito que a perseguição não se deve apenas aos corpos na arte. Existem corpos específicos que são perseguidos, não só na arte, mas em todos os meios. São corpos dissidentes do padrão heteronormativo e cisgênero. Qualquer coisa que fuja desse contexto tem sofrido algum tipo de perseguição. O corpo de uma mulher transexual em cena foi motivo de um motim seguido de um cancelamento de um espetáculo, mas o corpo de um homem cis e hétero pode fazer uma circulação nacional, principalmente se for uma pessoa famosa. Assim como um beijo entre dois homens em um espetáculo pode servir de desculpas para a demissão de um secretário, enquanto cenas eróticas passam em horário nobre na tv aberta sem sofrer algum tipo de tolhimento. A questão em si não é o corpo na arte, mas sim qual corpo? Quais os corpos que são silenciados.

E como tem sido esse período de isolamento para suas experimentações?

Confesso que esse período foi bastante frustrante para mim. Primeiro tive um gás de fazer treinos adaptados na tentativa de me reinventar, mas o mercado passou a exigir diversos tipos de produções instantâneas em editais de caráter emergenciais. Isso fez com que eu perdesse um pouco do tesão de criar durante o isolamento social. Pensando por outro lado, a arte também tem um viés terapêutico e cada vez que eu me via desanimado, tentava fazer um treino de preparação corporal para ganhar energia e assim poder explorar outras possibilidades e digo: não criei novos trabalhos, mas consegui enxergar um mundo de possibilidades que estavam no alcance da minha vista. Tudo foi sendo ressignificado para experimentar: cadeira, cama, sofá, entre outros. Sem falar das novas possibilidades que fui encontrando com os aparelhos de circo que eu já tinha e comecei a usar de uma maneira diferente por falta de espaço.

Era um paradoxo artístico sobre curtir novas experimentações e travar ao encarar a necessidade de criar em um período de crise de saúde mundial.

Como é sua relação com os artistas da cena musical atual? Tem alguém com quem você sonha em trabalhar, colaborar ou mesmo conhecer?  

Posso dizer que ainda há uma distância na minha relação com artistas da cena musical atual, mas tem muitos nomes de desejos para mim. No entanto, prefiro citar pessoas conterrâneas por acreditar que seria menos impossível fazer algo. Tem algumas pessoas que admiro bastante e até já troquei figurinhas sobre meu desejo de trabalhar junto como Sofia Freire, que é uma mulher super potente e inspiradora. Ela transforma poemas em músicas misturando o erudito e o eletrônico, de forma envolvente. Tá aí, Sofia é uma das pessoas que eu mais desejo trabalhar pela sua capacidade de se reinventar e experimentar novas coisas.

Quais são os autores de referência nas suas pesquisas?

Ah, eu tenho muitas referências nas minhas pesquisas e não se limitam apenas a autores de publicações. Costumo trazer pessoas que me cercam e outros grandes nomes que são referências como Ermínia Silva, artista e pesquisadora, que veio de uma família circense tradicional e é Doutora com uma grande pesquisa sobre a historicidade do circo. Marco Antonio Bortoleto é outro nome que uso de referência nas minhas pesquisas. Também trago nomes consagrados que pesquisam o movimento e dança como Rudolf Laban, Doris Humphrey, Jussara Setenta.

Além dos livros, tive a sorte de cruzar com artistas da dança e do circo que são referências para mim como Gabriel Hernan (Palhaço Fino), Shena Tschofen, Orun Santana e por aí vai. É um mundo de gente que tá aí para a gente aprender e se referenciar.

Recentemente, você foi aprovado para uma escola de Circo em Goiás e está fazendo uma vaquinha virtual. Conte mais sobre esse novo desafio e como as pessoas podem colaborar.

Então, o circo é uma linguagem muito carente aqui no Brasil. Existe uma escassez quando se trata de formação profissional, principalmente no Nordeste. E em busca dessa realização profissional, eu me candidatei a uma vaga do Núcleo de Formação Ampliada ao Artista Circense (NUFAAC) da Cia. Catavento, lá em Goiânia, em Goiás, e fui um dos selecionados. Essa formação tem duração de um ano com carga horária de 1200 horas, divididas entre artes do circo, artes da cena e suas teorias. O curso visa formar o artista de circo intérprete/criador apto a integrar sua investigação e desenvolvimento no processo evolutivo das artes circenses, contribuindo para o desenvolvimento das artes e transformação social. Mas isso requer um grande investimento financeiro para matrícula, transporte, mudança, etc.

Foi então que surgiu a ideia de fazer uma vaquinha para não perder essa oportunidade. Afinal, é um sonho que só vai contribuir com a minha arte e com a cidade também. Para contribuir, as pessoas podem doar através do link: http://vaka.me/1379605 ou mandar uma mensagem lá no instagram que eu ofereço outros meios para doação.

Para fechar, poderia nos dizer o que você planeja para os próximos meses?

Nos próximos meses, quero me dedicar à formação do NUFAAC para que eu possa trazer muita novidade para o Nordeste, compartilhando tudo que vou aprender com outras pessoas através de aulas e espetáculos. Também espero ter algum projeto aprovado nos editais da Lei Aldir Blanc para que eu possa financiar parte das minhas pesquisas e enfim tirar tudo do papel.

Enquanto isso vou me dedicando a finalizar alguns projetos que já estão em andamento e todo o mundo vai poder acompanhar logo, logo.

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