O quadrinista inicia uma série de publicações para mostrar o processo de criação de sua HQ Monstrans: Experimentando Horrormônios, uma revista em quadrinhos autobiográfica na qual retrata experiências pessoais e tece pontes entre deficiência, lesbianidade e transmasculinidade.

Contemplada pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018, a HQ está prevista para ser publicada em 2021, mas, desde já, o público pode acompanhar vídeos sobre o desenvolvimento do projeto, participar de sorteios na página do artista e debater temas ligados à HQ através de lives no Instagram.

Leia mais
Reportagem: A HQ é queer
Um papo com Mário César: HQ para curar a homofobia

Arruda compartilha suas experiências na HQ, que aborda a transmsculinidade de diferentes perspectivas. “O meu maior desafio é o fardo da representação: não estou tentando delimitar ‘o que é transmasculinidade’ e, por termos poucas narrativas da perspectiva transmasculina, o trabalho sempre corre o risco de virar uma representação genérica e descritiva”, diz o autor em entrevista à Revista O Grito!. “Por isso friso bastante que essa é a minha experiência autobiográfica, que comunica com a minha trajetória particular”.

A nova HQ do autor, que é doutor em literatura pela UFSC/University of Arizona, chega após diversas experiências com zines e colaborações coletivas. Inicialmente atuando como lésbica feminista e agora como transmasculino, os trabalhos de Arruda refletem o desejo de discutir subjetividades de gênero a partir de novos olhares. “Há pouco espaço para minha identidade nessas iniciativas incipientes feministas e/ou , que contemplam o “trans” muitas vezes só a partir da feminilidade”, diz.

Cenas de Monstrans.

No nosso papo, Arruda falou sobre representatividade transmasculina nas HQs, cenário de quadrinhos no Brasil e como tem sido lidar com o isolamento social na quarentena.

Pode falar um pouco do seu novo projeto, o “Monstrans”? Como surgiu a ideia e qual o seu objetivo com esse experimento?

O livro autobiográfico em quadrinhos Monstrans: experimentando horrormônios é um desdobramento da minha tese doutoral sobre monstruosidades na autorrepresentação trans: desenvolvi um quadrinho como conclusão da pesquisa e inscrevi esse trabalho no edital Rumos Itaú Cultural 2017-2018, com o qual fui contemplado. 

Estou desenvolvendo três histórias que combinam deficiência, lesbianidade e transmasculinidade utilizando a figura do monstro. Na primeira história relaciono a masculinidade lésbica aos tratamentos pelos quais passei desde a infância para “corrigir” uma deformação congênita nos ossos: observo que havia uma relação muito próxima entre ser simétrica/bonita e ser menina, e que a deficiência acentuava outros lugares “tortos” e indesejados do meu corpo, como a masculinidade. 

Na segunda história eu revisito, a partir da posição transmasculina que assumo hoje, algumas memórias de lesbofobia que passei no colégio e na cidade de Campinas. Uso a figura do fantasma para traçar um contínuo na minha trajetória lésbica e trans, evitando narrativas de superação ou fragmentação dessas vivências.

A terceira história é aquela que desenvolvi na minha tese. Conto sobre a última vez que vi meu avô, no seu leito de morte: ele foi incapaz de me reconhecer por conta das alterações que a testosterona trouxe no meu corpo.  Resolvi representar essa situação de ininteligibilidade (a incapacidade do meu vô de ver em mim a neta que “ainda fui”) através de um monstro amorfo, que vai derretendo na medida em que não consegue provar a própria identidade nem quando mostra o RG.

O meu objetivo é pluralizar as narrativas sobre transmasculinidade e deficiência, lançando um olhar criativo, que escapa a “superação” e a ênfase no sofrimento. Me interessa produzir algo que alimente a minha comunidade, ou seja, algo que possa reverberar na experiência de outras pessoas trans.

Por que a decisão de compartilhar o processo criativo da obra na web? Como irão funcionar essas interações?

A ideia de publicar vídeos contando sobre o processo criativo e técnico do desenvolvimento do livro objetiva dar mais visibilidade ao projeto, mas também criar redes e oportunidades para entrar em diálogo (principalmente através das lives no instagram) e debater alguns temas centrais da minha comunidade, que estou trazendo na publicação: como, por exemplo, a relação entre transmasculinidade e representação, as narrativas e roteiros mais comuns, como criar e anunciar que um personagem trans.

Como acadêmico sempre achei oportuno apresentar um artigo em congressos antes de publicar, para ver outras perspectivas e me contaminar com as respostas de um público especializado. Acredito que o engajamento do público com o desenvolvimento da HQ possa orientar e remodelar a proposta, além de explicitar quais temas reverberam mais e quais as formas mais interessantes de abordar assuntos complexos, como a relação entre lesbianidade e transmasculinidade ou entre deficiência e transexualidade.

Também tem sido muito positivo receber esse retorno do público, que acaba estimulando e dando sentido ao trabalho árduo e muitas vezes solitário que é passar horas sentado desenhando e pintando os quadrinhos. É uma oportunidade de ir dando vida social a um processo de trabalho bastante antissocial.

O meu maior desafio é o fardo da representação: não estou tentando delimitar “o que é transmasculinidade”. Friso que essa é a minha experiência autobiográfica.

Como tem lidado com a quarentena? O isolamento afetou de alguma maneira a sua produção artística, sua criatividade? Como tem passado esses dias?

Com a quarentena me mudei para Campinas, para estar mais próximo dos meus pais, o que é frequentemente um desafio para pessoas trans. O isolamento está sendo positivo para o meu trabalho: como desenvolvo o roteiro, o texto, os desenhos e a pintura da HQ sozinho, foi uma oportunidade de focar na produção e expandir minha atuação. A introspecção que as circunstâncias geram foi oportuna, principalmente porque meu trabalho articula muito a memória. De certa forma retornar para Campinas, a cidade onde morei a maior parte da minha vida e onde vivi algumas das experiências que descrevo na HQ, promoveu um retorno mais lúcido às vivências que estou tentando ficcionalizar.

Como pessoa trans, os novos protocolos sociais da pandemia também estão impactando e recodificando meu  gênero: percebi que, por ter cabelo cumprido, quando estou de máscara sou tratado no feminino (coisa que não acontecia há anos). Precisando aprender a navegar meu gênero nessa nova apresentação do corpo e criar estratégias novas, estou pensando como incluir algumas dessas novas diretrizes nessa publicação.

Trecho da nova HQ de Lino Arruda.

Uma das HQs do novo projeto fala da transmasculinidade, bem como seus zines. Como foi abordar esse tema a partir de suas próprias experiências?

Todas as histórias da HQ pautam transmasculinidade de diferentes perspectivas: em sua conexão com a formação de um corpo deficiente, em sua difração da lesbianidade e na tentativa de tornar visível e possível esse corpo num mundo onde “mudar de gênero” é praticamente inconcebível. O meu maior desafio é o fardo da representação: não estou tentando delimitar “o que é transmasculinidade” e, por termos poucas narrativas da perspectiva transmasculina, o trabalho sempre corre o risco de virar uma representação genérica e descritiva. Por isso friso bastante que essa é a minha experiência autobiográfica, que comunica com a minha trajetória particular. Nesse sentido esse tipo de exposição (fazer um trabalho tão focado na minha história e que leva meu nome), num momento politicamente polarizado, retrógrado e conturbado, têm gerado algumas preocupações.

O cenário de quadrinhos no Brasil e no mundo tem dado espaço a subjetividades que sempre foram invisibilizadas, sobretudo de pessoas LGBTIA+. Como você enxerga esse momento?

Tendo atuado desde 2011 na produção de quadrinhos como lésbica feminista, e agora como transmasculino, vejo por um lado uma ascensão muito positiva como as iniciativas “Mina de HQ”, “mulheres nos quadrinhos” e principalmente a feira de quadrinhos LGBTTIA+ POC CON, organizada pelo quadrinista gay Mário César

É muito gratificante podermos ver cada vez mais ênfase nas publicações feitas pelas comunidades marginalizadas, não só as LGBTIA+, como também as que se interseccionam com raça, classe, etnia e deficiência.

Noto, entretanto, que as iniciativas que finalmente começaram a acolher as mulheres trans, as transfemininas, as travestis e as pessoas não-binárias ainda precisam se abrir mais à transmasculinidade: a maior parte do meu trabalho foi desenvolvido quando eu me identificava como lésbica, mas parece que a transição invalidou essa experiência que tive como mulher (como se minha transmasculinidade não estivesse enredada nessa experiência), e não tenho visto muita abertura a pessoas transmasculinas para participar desses espaços, tamanha invisibilidade e desconhecimento a respeito das nossas identidades. Quando falamos “trans”, automaticamente pensa-se travesti ou transfeminilidade, que são identidades mais projetadas no Brasil: a invisibilidade da transmasculinidade é tão sintomática que quando fui contemplado com o Itaú Rumos um jornal publicou a matéria se referindo a mim como mulher trans!

Há uma dificuldade (e de certa forma um esvaziamento de sentido) em me inserir no campo mainstream dos quadrinhos feitos por homens (que dominam o mercado) e, ao mesmo tempo, há pouco espaço para minha identidade nessas iniciativas incipientes feministas e/ou LGBT, que contemplam o “trans” muitas vezes só a partir da feminilidade.

Tanto no seu trabalho como artista quanto como pesquisador há muito um trabalho de investigação e memória da experiência trans no quadrinho independente. O que você descobriu de mais interessante nessa produção artística que o grande público ainda desconhece?

Venho percebendo que principalmente a produção que não é feita por pessoas trans consolidou uma narrativa clássica sobre transição, bem alinhada com os parâmetros biomédicos que regulam essa identidade (como a ideia de “transexual verdadeiro”): não quer dizer que essas não sejam as experiências com as quais muitas pessoas trans se identificam, mas acho que houve um esgotamento e uma saturação de uma forma linear de representar a transexualidade: por exemplo, as histórias clássicas “brincava com brinquedos do sexo oposto” “me vestia com roupas do sexo oposto” (o quadrinho francês Justin, de Gauthier, é um exemplo). Também há um estereótipo na forma como se anuncia personagens trans, com a aposta na revelação da genital ou da representação da hormonização.

A ênfase no sofrimento também é uma constante muito limitadora, tanto no diagnóstico da transexualidade como na representação mainstream das nossas experiências. O que eu descubro observando o que a comunidade trans tem produzido, é formas de tocar temas complexos (como a solidão estrutural, a violência, o suicídio, etc) com humor inteligente e através de uma perspectiva criativa. O que eu tento fazer no meu trabalho é desviar das narrativas clássicas (a exemplo de: “eu nasci um homem preso no corpo de uma mulher”) e procurar o interstício das experiências de gênero, os lugares onde as identidades não estão tão sólidas, onde as narrativas se contradizem e não tentam “se explicar” para um público cisgênero. Para isso percebo que o emprego de figuras monstruosas e animalescas é uma aposta interessante da autorrepresentação, pois é capaz de dar contornos mais borrosos e múltiplos ao corpo trans.

Noto que as iniciativas que finalmente começaram a acolher as mulheres trans, as transfemininas, as travestis e as pessoas não-binárias ainda precisam se abrir mais à transmasculinidade.

Quais artistas você gosta e te inspiram? Queria saber um pouco das suas referências.

Tenho poucas referências de quadrinhos: comecei tarde, fazendo HQs em zines precários só para ilustrar as piadas e as histórias da minha comunidade lésbica, como uma brincadeira e uma forma de materializar uma cultura que não víamos na televisão.  

As cartunistas que me inspiraram quando comecei foram Alison Bechdel, Jennifer Camper e Diane Dimassa (a publicação Hothead paisan foi uma grande inspiração para as minhas colaborações nos zines Sapatoons – infelizmente a autora se identifica hoje com um movimento transfóbico contra mulheres trans, e inclusive, a partir do seu engajamento com o Michigan Wymen’s Fest, ela passou a negar que a personagem de gênero ambíguo “Daphne” seja uma personagem trans). Como me interesso pelo tema da monstruosidade e por técnicas detalhadas, também gostei muito da série de HQs Monstress.

No âmbito nacional quero frisar o trabalho da comunidade trans:  acompanho e gosto muito do trabalho da Diana Salú, sou fascinado pelas figuras monstruosas espetaculares da Monique Moon e vale a pena mencionar as tirinhas de Kel Vitorelo, que também trazem uma perspectiva não-binária. Os trabalhos em quadrinhos do Lázaro Machado, com quem colaborei nos zines Sapatoons, também são excepcionais. Sinto falta de mais referências nacionais de quadrinistas transmasculinos.

Qual a lembrança mais remota de querer ser artista e trabalhar com quadrinhos?

A minha mãe é artista e sempre estimulou muito o meu trabalho com desenho, devo muito ao apoio dela. Me lembro que aos 5 anos ganhei um concurso de desenho para crianças (me deram uma medalhinha prateada com a figura de um pintor, que passei a usar no pescoço), depois comecei a fazer desenhos no colégio para dar de presente para as meninas que eu gostava (as crianças me pediram as primeiras comissões). Acho que como uma criança estranha, deficiente e visivelmente masculinizada, “saber desenhar” me validou muito no campo social, e abriu caminhos para querer trabalhar com isso.

Conheça mais do trabalho de Lino Arruda
Instagram
Site

Leia Mais
Quarto volume de Gideon Falls é anunciado durante o Mino Day