Foto: Caroline Lima.

“O mundo tem que melhorar / Eu já mudei minha percepção / Agora eu sou Preta D+ / Mas não na sua conotação / Eu sou D+, eu sou incrível/ Eu sou D+ e não sou invisível/ Eu sou Preta D+”. Esses são os versos de “Preta D+”, música da cantora Tássia Reis, que aborda a inadequação a padrões e – por conta disso – a afirmação da negritude e das raízes. A artista é um dos destaques do festival No Ar Coquetel Molotov, que tem edição 2020 com programação de forma virtual, intitulada Coquetel Molotov.EXE. 

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Rapper nascida em Jacareí, em São Paulo, Tássia Reis, nome instigante da cena independente, começou a escrever suas rimas em 2009, com algumas aparições em refrões de MCs locais. Ela lançou seu primeiro álbum em 2014 e o segundo, em 2016, Outra Esfera e acha que nem precisa falar sobre racismo ou feminismo para criar uma música politizada. Já em Próspera essa intimidade com diversas influências aflorou de maneira ainda mais intensa do que em seus antecessores. O álbum foi aclamado pela crítica especializada e considerado um dos melhores do ano pela APCA.

A rapper diz ter diversas influências que passam por nomes como Alcione, Djavan, Nina Simone, Rihanna, Beyoncé, além de grandes nomes do samba. “De todas as sonoridades, acho o samba mais presente desde sempre na minha vida”, conta. Batemos um papo com Tássia Reis sobre o início de sua trajetória, suas referências, o rap, o isolamento social compulsório por conta da pandemia e planos futuros. Desça e confira!

Como surgiu a Tássia Reis? Quando você percebeu que queria ser cantora e como é ser cantora de rap?

Reza a lenda que meu pai já sabia que eu seria artista desde a barriga da minha mãe, o tempo passou e eu não decepcionei rs. Fui dançarina de Hip Hop, foi como conheci a cultura, ao mesmo tempo em que desfilava em escolas de samba da minha cidade. Não sei de onde a música veio, acho que ela já estava comigo desde antes também, com a minha família. Eu me considero artista, acho que “cantora de Rap” limita, principalmente, quando o que eu apresento extrapola uma denominação. O rap está aqui, assim como o samba, o soul, o jazz, e o blues, estão todos aqui, e juntando tudo na medida certa dá a Tássia Reis.

No começo como era ser mulher e cantar rap? Você teve aceitação?

Eu lancei o meu primeiro single em 2013, lancei pra ver o que acontecia, e na verdade, aconteceu. E fui entendendo, aos poucos, como as coisas funcionavam. Penso eu que cada pessoa tem a sua própria trajetória, a minha sempre foi um degrau de cada vez, e muito corre, mas cada dia mais pessoas curtindo e acompanhando o meu trabalho desde o primeiro dia até agora, e isso é muito especial pra mim. 

De onde vêm as suas principais referências e inspirações?

Eu me inspiro na vida, no cotidiano do pensar e do sentir, me investigo muito e acabo criando musicas a partir das minhas próprias vivências, emoções e questionamentos. Visualmente falando, acho que comecei me inspirando na minha mãe, ela é e sempre foi muito original e bela. Me inspiro na Alcione, Billie Holiday, Djavan, Nina Simone, Jorge Aração, Rihanna, Beyonce, Szaetc … 

O rap está aqui, assim como o samba, o soul, o jazz, e o blues, estão todos aqui, e juntando tudo na medida certa dá a Tássia Reis.

A sonoridade do seu trabalho apresenta um diálogo entre a música afro tradicional e a produção eletrônica. Qual a importância de trazer esses elementos da cultura afrobrasileira para o contexto da música contemporânea?

De todas as sonoridades, acho o samba mais presente desde sempre na minha vida, e considero o samba uma tecnologia que nunca ficará em desuso. Sendo assim, estará sempre presente no meu trabalho, seja através de métricas, melodias, sonoridades ou referências. 

Seu álbum Próspera foi aclamado pela crítica especializada e considerado um dos melhores discos do ano pela APCA. Como isso foi recebido?

Fiquei muito feliz, assim como os meus outros trabalhos que também estiveram nessas listas de crítica especializada, sinto que estou falando e as pessoas estão entendendo. Parece simples, e é. Que bom que tem dado certo. 

Na fase de seleção das músicas, o que pensou para a estética sonora?

Quando eu comecei a pensar no Próspera, eu imaginei sensações. As sensações me levam as sonoridades, que nos levaram a produzir e criar cada faixa. Desde um samba com peso eletrônico, a influência de trap, passando pelo r&b, chegando no Blues, Jazz e Samba Soul. 

Acredita que o rap brasileiro está passando por um processo de amadurecimento, mirando o mercado internacional das periferias culturais do mundo?

Bom, o rap já é há alguns anos o estilo musical mais ouvido do planeta, segundo uma pesquisa do Spotify, de um ou dois anos atrás. Tudo de mais inovador vem das periferias, sempre veio. Mas como tudo que vem das periferias e do povo preto, encontra certa resistência em alguns espaços, entretanto, continua crescendo, assim como o funk, o brega e etc. Sem contar que hoje temos a internet como conectora pra aproximar essas pessoas criativas ao redor do mundo.

De todas as sonoridades, acho o samba mais presente desde sempre na minha vida.

E como tem lidado com a quarentena? Como o isolamento social impactou a sua produção artística?

Os primeiros dois meses foram mais paralisantes e chocantes. Tínhamos um planejamento e faríamos muuuuitas coisas legais esse ano, então deixar tudo de lado levou um tempo na mente pra processar. Mas entendi que não era comigo, é com o mundo todo, e fiquei um tempo só me cuidando sem me cobrar resultados de nada. Do meio de maio pra cá foquei em organizar algumas coisas pessoais e também da minha carreira. Reativei a minha marca, Xiu!, que por conta da correria tinha desativado, e também recomecei a trabalhar musicalmente, tentando me adaptar ao momento atual, e também ao que virá, pois parece que temos uma jornada complexa pela frente. 

E como encara essa mudança para as apresentações exclusivamente em lives? O que espera dessa edição online do Coquetel Molotov?

É um outro tipo de performance, me lembra um pouco de quando era adolescente e ficava em casa brincando de performar. A diferença é que não é mais brincadeira. É diferente do ao vivo, mas também tem sua magia, poder levar algum acalanto para as pessoas, nesse momento tão difícil. Estou super animada com o Festival Coquetel Molotov, do qual nunca participei, espero poder levar um carinho musical a quem estiver conectadx com a gente.

Foto: @caodenado.
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