Série foi criada pelo mesmo autor de Sex and The City. Foto: Divulgação/Netflix.

Uncoupled é morna mas tem seus charmes

Série dramédia da Netflix estrelada por Neil Patrick Harris explora as vivências gays após um fim de relacionamento

Uncoupled é morna mas tem seus charmes
2.5

Uncoupled
Darren Star e Jeffrey Richman (criadores)
Com Neil Patrick Harris, Tuc Watkins e Tisha Campbell
EUA, 2022, 16 anos. 8 episódios na Netflix

A vida bem sucedida e os perrengues luxuosos da classe mais alta de arquitetos, corretores e empresários nova-iorquinos ganha uma cara nova na narrativa: uma cara gay. Uncoupled, série original da Netflix, estrelada por Neil Patrick Harris, tem como seu principal trunfo trazer a perspectiva LGBT para uma premissa já bastante experimentada na cultura pop televisiva, que é a superação do fim de um relacionamento.

A comédia dramática de criação dos roteiristas Darren Star, conhecido por seu trabalho em Emily em Paris e na ainda mais famosa Sex In The City, e Jeffrey Richman, conta a história do corretor de imóveis Michael (Neil Patrick Harris) que recebe do namorado Colin (Tuc Watkins) a notícia de que estão se separando após um relacionamento longo de 17 anos. Pior: ele recebe essa bomba em plena festa surpresa que organizou para os 50 anos dele.

O enredo se desenvolve a partir do término do casal principal e acompanha a jornada do personagem de Neil, um quarentão impulsivo, mimado, egocêntrico e acima de tudo, fadado ao sentimento de abandono. A série trabalha bem a narrativa da pessoa mais velha que encara mudanças em sua vida em um estágio que achava não ter mais nada para viver. Também nos traz a nuances do amor e do desamor para além dos trinta anos.

Dispensando a órbita das problemáticas que envolvem a sexualidade como acontece na maioria das produções de temática LGBTQIA+, em Uncoupled ser gay não é um problema. A partir disso, em paralelo ao sofrimento de Michael, além de seus trâmites no trabalho, entram em foco os desafios de ser solteiro após um relacionamento de 17 anos e mais, a aventura de estar “na pista” novamente. A forma como o seriado explora o personagem usando o Grindr (app de relacionamento e pegação gay), rende momentos hilários, pelas descobertas de Michael sobre o mundo da paquera depois de tantos anos longe.

O protagonista não tem um círculo de amizades tão extenso, mas em compensação traz ao seu lado o brilho da amiga Suzanne, interpretada pela atriz Tisha Campbell, famosa por seu papel em Eu a Patroa e as Crianças. Suzanne é a amiga sincerona, parceira, colega de trabalho, uma mulher preta bem sucedida e responsável por momentos que devem arrancar risadas do espectador. As piadas rápidas e a personalidade forte dão vontade de ter mais da sua história em tela, o que não acontece. Porém, sua presença está anos-luz de outras coadjuvantes mulheres em séries com protagonistas gays, onde elas muitas vezes serviam apenas como confidentes e muletas cômicas.

Os amigos do protagonista: pouco ousado na representatividade. (Divulgação).

Para completar os amigos mais próximos de Michael estão Billy e Stanley, vividos por Emerson Brooks e Brooks Ashmanskas, respectivamente, extremamente opostos. Billy é um jornalista-garoto-do-tempo que demonstra de forma escrachada só estar na TV para ser visto. Atlético e extremamente sexual em suas falas e atitudes, coleciona casinhos por onde passa e aparece quase sempre com um homem diferente. Nele, está retratado o mais próximo do “sugar daddy”, pelo olhar aguçado aos homens mais novos. Billy é um personagem que para além de Michael, é egocêntrico, egoísta, nada modesto e até o menos relevante na trama. Já Stanley, parece ser sua contradição. O especialista em arte é um homem gordo, gay, que vê sua vida sexual e amorosa numa situação escassa, preferindo muitas vezes curtir a própria companhia. Seus momentos com Michael revelam uma amizade agradável de assistir. Por outro lado, a vibe da dupla é meio Tom e Jerry, com Billy soltando farpas de revirar os olhos. A relação poderia dar indícios de que há algum sentimento entre os dois pela implicância, mas a possibilidade morre pelo simples fato do personagem de Emerson, ser apenas um babaca mesmo.

Outro destaque se dá a personagem de Marcia Gay Harden, que não é amiga do protagonista, mas faz de tudo para ser. Divorciada de um casamento de décadas com quem teve filhos e construiu fortuna, Claire enxerga semelhança no sofrimento do Michael. Eles se conhecem na tentativa de vender seu apartamento luxuoso e aos poucos vão construindo uma amizade, onde ambos passam a sentir menos o abandono de seus respectivos companheiros. A personagem de Marcia é bem cômica e mostra a tentativa de uma mente conservadora em um mundo mais aberto. As perguntas que faz sobre o que pode ou não falar são seu ponto mais forte e gera momentos divertidos.

Outro ponto alto é o papel de André De Shields como Jack, o vizinho oitentão de Michael, que mesmo com aparições pontuais e algumas discretas, é relevante por si só. A experiência do homem gay nova-iorquino mais velho que com palavras soltas te dá uma lição de vida torna o personagem icônico.

Uncoupled apesar de bem bolada e dirigida, traz alguns problemas no roteiro. A trama da cruz de Michael pelo ex-namorado chega a ficar maçante e previsível, tornando a trajetória de outros personagens superficialmente abordadas, como a da própria Suzanne. Outra questão é a superficialidade com que trata de temas levantados pelo roteiro, como a exclusão aos homens gays fora do padrão, sexo seguro, e maternidade solitária. Até podemos perdoar tais deslizes por se tratar de uma comédia e a profundidade nem sempre ser necessária, mas levantar temas sem desenvolvê-los acaba gerando um sentimento de frustração.

Ainda lembrado por seu personagem em How I Met Your Mother, Neil mostra em Uncoupled que consegue segurar um papel principal. É um ator que interpretou bem a verve melancólica quando exigida, e fez comédia quando deveria na trama. Diferentemente do papel do seriado de 2005, Neil, assumidamente gay, vive um personagem que tem mais em comum consigo mesmo. Em contrapartida, Tuc Watkins apresenta uma atuação apática como Colin e parece ter trazido inspirações de seu personagem em The Boys in the Band, um homem com sua sexualidade não assumida e bem heteronormativo. Na esteira dos pontos negativos está a falta de diversidade de corpos, a não ser por Stanley. O padrão musculoso que já tem tanto destaque nos filmes além das temáticas LGBTQIA+ permanece na série. 

Uncoupled é uma dramédia que provavelmente não vai te fazer morrer de rir, mas alcança o suficiente para a sua proposta. Sem muita complexidade, ou uma carga emocional muito pesada, é leve, curtinha, tranquila para maratonar e sem maiores pretensões. A não ser pelas pontas soltas da primeira temporada chamarem uma continuação. A série tem uma boa fórmula mas não o apelo ideal para levar Neil ou até mesmo o diretor Darren Star a um patamar maior que o alcançado nos sucessos anteriores.

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